José Jorge Letria
A jovem paquistanesa Malala Yousafsai, baleada na cabeça em Outubro passado por elementos taliban quando regressava da escola, foi recebida na ONU, onde apelou ao direito à educação e à tolerância. A jovem, que esteve entre a vida e a morte devido ao brutal atentado de que foi vítima, tornou-se um alvo do fanatismo islâmico por ter defendido de forma corajosa o direito à aprendizagem livre e o combate ao analfabetismo. Na ONU, todos quantos sobre ela usaram da palavra não hesitaram em chamar-lhe “heroína”, “campeã” ou mesmo “a mulher mais corajosa do mundo”.
Na realidade, é preciso ter uma coragem difícil de imaginar e descrever para, num ambiente de fanatismo, intolerância e violência extrema, se defender o direito à educação e à partilha do conhecimento sem que as mulheres e os jovens tenham de ser discriminados e violentados por reivindicarem esse direito elementar.
Malala, acabada de entrar na adolescência, foi capaz de erguer a voz contra a cegueira dos fanáticos que, em nome de uma concepção de Deus e de uma prática religiosa violenta e irracional, se recusam a aceitar que uma jovem lute pelo direito básico e indisputável de aprender, de estudar, de progredir nos domínios da profissão e do pensamento e de reivindicar esse direito para os seus compatriotas, designamente as mulheres jovens que não aceitam ficar confinadas ao espaço doméstico como escravas do poder masculino que a religião fanatizada legitima.
O que de trágico aconteceu com a jovem Malala coloca a tónica do debate internacional no confronto entre o fanatismo e a tolerância, que marcam de forma dramática o presente e o futuro da humanidade. Se porventura as forças do fanatismo e da intolerância triunfassem, perspectiva de dimensão trágica, teríamos por diante um tempo de trevas que poderia lançar o mundo num conflito sangrento e de duração imprevisível, fazendo-nos recuar até às décadas de horror e extermínio impostas pela máquina de destruição massiva do nazismo.
Numa altura como esta, vale a pena ler e reler o que o escritor israelita Amos Oz escreveu sobre o fenómeno do fanatismo, tenha ele a origem religiosa e política que tiver, pois constitui sempre uma perversão, uma aberração e um atentado às mais básicas liberdades e direitos do ser humano.
Mas, infelizmente, o fanatismo também pode ser ideológico e ter expressão perto de nós quando vemos políticos, em nome de um projecto ideológico ultraliberal que destrói a economia e o futuro de várias gerações, recusarem-se a reconhecer que o o seu ciclo terminou e que não é admissível manter a navegar aquilo que, numa crónica recente, o historiador, político e comentador José Pacheco Pereira designou certeiramente por “navio-fantasma”.
Na realidade, o “navio-fantasma” da governação continua a navegar sem rumo pois existe uma forma de fanatismo que, encoberto sobre o rótulo de “interesse nacional”, impede Portugal e os Portugueses de entrarem num novo ciclo político resultante da expressão da vontade popular, manifestada em eleições legislativas.
Quando se perde a legitimidade social e em boa parte a política, só por cegueira ou intolerância se persiste no erro, na irracionalidade de soluções insustentáveis e na manutenção de um projecto que entrou em fase de agonia.
Só existe uma solução quando as pessoas sofrem individual e colectivamente e não vêem saída para a angústia e para a privação que profundamente as afectam. Essa solução é fazer funcionar os mecanismos regeneradores da democracia. De outro modo, pode abrir-se a porta ao autorìtarismo, ao fanatismo e à morte, anunciada ou não, da própria democracia.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3990 de 19-7-2013

