Ai, São Esteves, São Esteves…
Bernardo de Brito e Cunha
NÃO TENHO BEM a certeza: mas dá-me a ideia que a desastrada intervenção de Assunção Esteves, na Assembleia da República, após uns dois dias de protestos no Facebook e nos blogs, morreu. Mais do que ter morrido, dá a ideia que Esteves passou pelos intervalos dos protestos e, mantendo-se em silêncio, terá deixado a coisa arrefecer. Mas comigo, não. E custa-me escrever estas linhas – custar-me-ia sempre, fosse com quem fosse – por se tratar da segunda figura do Estado. E como daqui se pode concluir que “isto está bonito, está!”, cá vai.
Para quem não saiba de que falo, na quinta-feira da semana passada registou-se mais um protesto nas galerias do Parlamento, que levou à interrupção dos trabalhos por mais de cinco minutos. A nossa empertigada Assunção, depois de pedir várias vezes silêncio às pessoas que se encontravam nas galerias, lembrou que os deputados “não foram eleitos para ter medo e para ser coagidos”. Lindas palavras que provam que Esteves tem estudos. Mas, quando podia ter feito o que devia (interromper os trabalhos e fazer sair os “manifestantes”) não ficou por aqui e decidiu dar-lhes conversa. Troco, pois…
COM AQUELE casaquinho mal cortado que é o seu fatinho de ver o Parlamento, a segunda figura do Estado decidiu encetar um diálogo com os manifestantes (coitados: eles só diziam coisas certas, como “Demissão!” ou “Fascismo nunca mais!”) e com os próprios deputados. Isto é: durante uns breves instantes o Parlamento foi, de facto, um local democrático. Mas a Assunçãozinha deu-se conta disso a tempo e vá de meter travões a fundo: e vá de acrescentar que “provavelmente também não fomos eleitos para não sermos respeitados” o que, está bom de ver, é uma coisa que não tem a ver com a nossa realidade, porque aqueles que elegemos, assim que se sentam, deixam de respeitar os seus eleitores.
MAS A NOSSA Esteves, que umas linhas acima já provou ter alguns estudos, decidiu mostrar o seu currículo: a presidente da Assembleia da República aproveitou então para citar a filósofa francesa Simone de Beauvoir: “Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes”, uma frase que a escritora usou numa referência aos nazis que ocupavam a França. Ninguém percebeu a relação: que têm os “carrascos” e os “maus costumes” a ver com meia-dúzia de cidadãos que reclamavam, como já disse, “Demissão!” ou “Fascismo nunca mais!”?
Mas o currículo, que ela queria empolar, saiu um pouco emagrecido: é que Assunção Esteves já tinha citado esta mesmíssima frase em 2006, num debate no Parlamento Europeu quando era eurodeputada… Olha que chatice!
O problema é que o assunto teve um remate ameaçador: “Provavelmente teremos de considerar as regras de acesso às galerias”, disse Assunção Esteves. Muitos lembraram que o “Parlamento é a casa da Democracia” e que “As galerias estão abertas ao público, sendo que o público tem de observar determinadas regras. Se interromperem a Assembleia, o presidente manda evacuar as galerias, mas não pode (e isso nunca se verificou) impedir o acesso às galerias”, como explicou o ex-presidente da Assembleia Manuel Alegre.
O QUE TEM GRAÇA é que o Canal Parlamento (ou ARTV, se preferirem) que transmitia os trabalhos, não mostrou uma única imagem dos protestos na galeria, limitando-se a focar a presidente da Assembleia… Também este pequeno (?) incidente morreu sem mais explicações. Valeu a SIC, que transmitia em directo e, mais tarde, no “Jornal da Noite”, Rodrigo Guedes de Carvalho que esteve bem e nos relembrou a quem era realmente dirigida a frase de Simone de Beauvoir.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Em “As Filhas da Mãe”, temos a escaldante Cláudia Raia que, imagine-se!, faz o papel de Ramon e que, por via de uma operação, acabou por se transformar em Ramona, uma belíssima mulher. Mas como ali tudo é um pouco misterioso, ninguém sabe ao certo se Ramona é completamente mulher ou se… exactamente. Será coisa que descobriremos lá mais para diante. E Fernanda Montenegro? Bem sei que se trata de uma frase feita, mas esta mulher é como o vinho do Porto: parece que à medida que o tempo vai passando ela vai ficando mais interessante. O seu papel é o de uma brasileira que, depois de passar pela Europa, acabou por triunfar em Hollywood, na indústria do cinema, sendo aquilo que se pode chamar uma coleccionadora de Óscares. Notável. Ela é a mãe de três filhos – que abandonou quando partiu para a Europa – e que agora regressa ao Brasil para os reencontrar. As duas filhas, localizou com relativa facilidade: o filho é que tem sido mais complicado. Como se está mesmo a ver, ela abandonou um Ramon e não suspeita que ele se transformou em Ramona.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3990 d 19-7-2013

