Sinergias e mulheres na televisão
Bernardo de Brito e Cunha
OS GRUPOS televisivos ou de imprensa escrita, chamam-lhe pomposamente “sinergias de grupo”: uma notícia posta a nu por um jornal aparece em todos os outros jornais do mesmo aglomerado de publicações. Torna-se desinteressante, porque transforma (em grande percentagem) todos os jornais iguais, excluindo naturalmente as colunas de opinião que um ou outro possam ter. No campo da televisão acontece o mesmo, como aliás já aqui referi diversas vezes: as notícias da hora do almoço são as mesmas do jornal da noite (ou vice-versa) se exceptuarmos uma ou outra actualização, um óbito de última hora, etc. As imagens, então, são repetidas até à exaustão, sempre que o tema é o mesmo. Tomemos o desemprego: quantas vezes, nos últimos meses, vi aquelas mesmas mãos a coser uma sola de sapato? E aquelas outras a mirarem a qualidade e acabamento de umas malgas em cerâmica? Para não falar num outro trabalhador que faz o mesmo molde metálico há um ror de tempo?
MAS AS SINERGIAS não ficam por aqui. No caso da TVI, por exemplo, os programas vão muito para além do seu horário normal. Tome-se o “Dança com as Estrelas” que terminou, tanto quanto sei, no último domingo. Terminou? Não exactamente: à semelhança do que aconteceu nas semanas anteriores, o programa da manhã “Você na TV” volta a exibir os números musicais. É que são horas a (re)ver os números da véspera e da antevéspera, dado que escrevo à terça. Horas, com repetições e pormenores. E não entendo bem o investimento da TVI em Cristina Ferreira – sobretudo agora que o programa acabou e não há notícia de ela vir a ter outro em breve. Era um daqueles blocos de imagens como costumam fazer aos concorrentes do Big Brother, quando saem: ela a rasgar a saia, a voltar a pô-la, a tirá-la e ficar mini mini mini, eu sei lá! Não entendo esta fixação em Cristina Ferreira, sinceramente…
CONFESSO QUE FOI uma surpresa o “Quem Ser Milionário?” com Manuela Moura Guedes. Houve o clássico coro de críticas contra a sua contratação, mas não sei quem, na RTP, poderia fazer aquele papel. Malato de novo? Jorge Gabriel outra vez? Carlos Cruz… esse era mais difícil. Para além do que dar um emprego a uma desempregada há uns três ou quatro anos me parece uma obra meritória ou, pelo menos, não tão grave como isso. A verdade é que estava à espera de bem pior. É verdade que Moura Guedes começou nervosa, por vezes titubeante, mas rapidamente recuperou quase totalmente a pose. Ou, pelo menos, na dose que lhe foi possível. Acredito que tenha ensaiado muito e que um regresso frente às câmaras um par de anos depois não tenha sido propriamente fácil. Procurou ocultá-lo o melhor que podia, embora aqui e ali as mãos a tenham traído.
É VERDADE que não tem a prática de Carlos Cruz – cujas gravações consta terem sido pedidas por Manuela para “ver como se fazia” – nem o à-vontade de Malato, que (quase nunca) perdia o pé nem quando se enganava, mas teve, logo no primeiro programa, a capacidade de se rir de si própria ou, mais exactamente, do tamanho da sua boca… Depois fez uma coisa como se lhe pedia, com um sentido de tempo requerido e, até, o ser capaz de conseguir fazer com que um concorrente prestes a desistir fosse capaz de optar, através de gestos e sugestão, pela resposta certa. Não gostei do seu aspecto gráfico, por assim dizer: acho que o cabelo não a favorecia mas, disseram-me logo cá em casa, que era “o corte da moda”. Fiquei a pensar se “o” corte da moda faz dele o corte perfeito e universal mas, claro, não o disse em voz alta: tenho amor ao meu fraco físico…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«E um dos pormenores mais interessantes da reportagem [no programa “Planeta Azul”], que tinha imagem de Pedro Silveira Ramos, terá sido o facto de terem falado, com câmara oculta, com diversas pessoas que se dedicam ao tráfico dos mais variados animais (o Omega Parque possuía um casal de lémures de cauda anelada, animal de Madagáscar de que devem apenas existir menos de mil exemplares em liberdade) e que não punham obstáculos a conseguir uma boa constritora, uma cobra da família da piton e da anaconda, proveniente da América Central e do Sul. O único problema é que a boa, caçada por causa da sua pele, está protegida pelos Apêndices da Convenção do Comércio Internacional das Espécies em Perigo de Extinção, o CITES a que a reportagem se referiu muitas vezes. Invendável, portanto. E, consequentemente, impossuível. Mas eram apenas esses? Não senhor: a reportagem foi aos arquivos da RTP e de lá tirou imagens de Raul Indipwo, primeiro com um macaco da Bolívia e depois com uma arara. Desta última vez, a seu lado estava Ana do Carmo, no papel de apresentadora do programa “Companhia dos Animais”, mas também o homem que ainda não há muito foi apanhado pela polícia brasileira a tentar embarcar com um estranho cinto composto por mais de 50 ovos de papagaio…»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3996 de 27 de Setembro de 2013

