José Jorge Letria
No dia 23 de Setembro morreram, com 40 anos de intervalo, dois grandes poetas. Em 1973 partiu o chileno Pablo Neruda, aos 69 anos, no seu exílio interno da Isla Negra, 12 dias após o golpe fascista de Augusto Pinochet, que derrubou o governo legítimo da Unidade Popular de Salvador Allende. Em 2013 morreu num hospital de Lisboa, perto de completar 89 anos, o português António Ramos Rosa, vítima de pneumonia, deixando uma obra muito extensa, designadamente como poeta e ensaísta.
Tenho a certeza que não se conheceram pessoalmente, mas pelo menos Ramos Rosa, nascido em Faro em 1924, conheceu bem a obra de Pablo Neruda, tendo talvez chegado a traduzir alguns poemas seus, dado que teve também uma intensa actividade como tradutor de poesia.
Em comum, para além de serem ambos grandes poetas, tinham o amor à palavra que transfigura e liberta e também um profundo amor à liberdade. Ramos Rosa chegou a militar no MUD Juvenil e a passar pelas prisões da ditadura. Neruda foi militante comunista e nessa condição candidato à Presidência do Chile, embora a sua carreira tenha sido a de diplomata, desde a Espanha Republicana até Paris, onde tanto prestigiou o seu país e a literatura. O Prémio Nobel veio consagrar a genialidade da sua obra única.
Morreram na mesma data, com 40 anos de intervalo, e as suas mortes deixaram o mundo mais pobre, pois é isso que acontece quando morre um poeta. Neruda morreu ( ou foi assassinado pela ditadura chilena) numa época em que o imperialismo norte-americano não tolerava ( e será que hoje tolera, mesmo com Obama na Casa Branca ?) qualquer veleidade revolucionária no continente americano e noutras paragens do mundo. Ramos Rosa partiu no auge da crise profunda que Portugal enfrenta, levando-nos a pensar no contributo que a poesia, com o seu fulgor e magia libertadora, pode dar para humanizarmos um quotidiano ensombrado por grandes inquietações e incertezas.
Ambos foram incansáveis trabalhadores da palavra, buscando sempre novos sons e sentidos para o dizer poético. Podem ter escrito e publicado outros textos, mas foram sempre e sobretudo poetas, pois fizeram com a poesia um pacto de vida que os levou a concentrarem nessa relação as suas energias vitais e o essencial da sua imensa capacidade criadora.
No final da II Guerra Mundial, o filósofo austríaco Theodor Adorno escreveu que, depois de Auschwitz, não mais seria possível escrever poesia. Mas hoje constatamos, em cada dia que passa, que, neste mundo que está refém da pressa, do consumismo, do egoísmo e do mais chocante relativismo moral, nunca a poesia foi tão urgente e tão necessária, porque nos traz um suplemento de espiritualidade sem o qual a nossa vida se esvazia de sonho, de esperança e de sentido. É certo que os constrangimentos orçamentais com que as editoras se debatem torna cada mais difícil editar poesia, mas é imperioso que os poetas não renunciem à liberdade e ao direito de escrever e de editar, ainda que isso represente um redobrado sacrifício.
Pablo Neruda e António Ramos Rosa representam a grandeza indomável da poesia como liberdade livre (título de um livro de ensaios do segundo) e só por isso já ganharam o direito à posteridade, que é esse lugar onde não chega a asa negra do esquecimento. Honra às suas obras e às suas memórias, pelo legado poderoso e exaltante com que iluminaram este mundo e este tempo de sombras.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3997 de 4 outubro de 2013

