Política à portuguesa e à europeia
Bernardo de Brito e Cunha
PRONTO, VIERAM as eleições e foi tal qual o que se esperava: a vitória do Partido Socialista, o amarfanhamento do PSD, e o CDS, que arranja sempre uma forma curiosa de ver as coisas, na boca do seu presidente/porta-voz parece que conseguiu fazer o “penta”. Futebolices… O pior é que as outras percentagens – abstenção, votos nulos e brancos – também bateram recordes. E ainda se fossem os recordes do costume, é coisa à qual já estamos infelizmente habituados… Mas não: desta vez, aqueles três conjuntos acima referidos registaram, por aquela ordem, os valores de 47,4, 2,95 e 3,87 porcento. O que significa, muito simplesmente, que esse grupo de pessoas que a) não foi votar; mais b) aquele que foi mas inutilizou o seu voto; e ainda c) aqueles que não gostaram de nenhum dos candidatos e votaram em branco, que todas essas pessoas somam 54,22 porcento dos eleitores portugueses – e todos bem juntinhos, organizados, tinham uma maioria mais que garantida! Não se podiam era esquecer de ir votar, claro!
ACOMPANHEI OS RESULTADOS, como geralmente faço, através da RTP. Estranhei que, desta vez, as coisas se prolongassem por mais tempo do que aquilo que é habitual, mas vim a saber depois que a culpa era da Administração Interna. Mas o que me causou mais espanto foi ter, de repente, visto que a emissão ia terminar sem uma contagem, digamos, que perto da final – até porque há freguesias onde as eleições se vão realizar mais tarde, este domingo talvez. Entre a RTP e um salto a um ou outro canal, ainda fui a tempo de ouvir Marcelo Rebelo de Sousa dizer: “Então Passos Coelho não disse ‘As eleições que se lixem!’? Então, pronto, já está lixado!”
E POR FALAR em Marcelo, fiquei surpreendido quando, na segunda-feira, ele aparece a abrir o programa “A Tarde É Sua”, de papelinhos na mão, a anunciar o sorteio de não sei quantos mil euros, a dar o número de telefone, etc, etc. Depois dessa pequena pantomimice, veio a saber-se a que se devia tudo aquilo: tudo se resumia a uma temporária troca de papéis com Fátima Lopes, destinada a entrevistar a habitual apresentadora que lançou um novo livro. Sei que ela já escreveu outros livros de que não li nenhum: mas em relação a este, que se chama “Mães e Filhas com História”, não posso deixar de me perguntar de onde lhe vem esta preparação e capacidade para a História, sobretudo quando Fátima confessa que escreve “muito rápido”… Surpreendeu-me.
MARCELO FEZ AQUILO com evidente gosto e à-vontade. Tanto, que me interrogo se aquilo que por aí se diz, que talvez se vá candidatar a presidente da República, se confirmar, como irá passar ele sem os comentários na TVI e brincadeiras como esta? Com muita dificuldade, suponho…
MAS O QUE não me surpreendeu nem um pouco foi o facto de a “Casa dos Segredos”, edição xyz, ter sido a grande vencedora das audiências na noite de domingo. Acho que isto diz muito do interesse da maioria do povo português pela res publica. Talvez até aqueles que são referidos no primeiro parágrafo não tenham ido votar para terem tempo de preparar um lanchinho para acompanhar a estreia do programa…
FIQUEI A SABER, nesta terça-feira 1.º de Outubro, que o Parlamento da Hungria aprovou na segunda-feira anterior, à noite, uma nova lei que permite às autoridades definir zonas proibidas aos sem-abrigo e destruir os seus abrigos ocasionais, segundo notícia divulgada pela agência France Presse. Para uma república parlamentar que aderiu à União Europeia em 2004, bem se pode dizer que lhe bastaram nove anos para começar a produzir leis absolutamente fascistas nas barbas dos restantes países membros. Talvez por isso convir a estes últimos (como modelo futuro?), até à hora em que termino de escrever nenhum dos restantes membros fez qualquer comentário.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A fama é uma coisa efémera. E então quando falamos de televisão… E vem isto a propósito de Fernando Rocha e do seu recém-estreado programa “Ou Bai ou Rocha”. Como saberão os que vão acompanhando as novidades televisivas, o “fenómeno” Fernando Rocha, em termos televisivos – televisivos, sim, que antes ele já tinha gravado uns CDs com anedotas – surgiu com o programa “Levanta-te e Ri”. Mas aí ele estava inserido na estrutura do programa em igualdade de circunstâncias com os outros convidados. Foram as suas características muito próprias (o seu falar à moda do Porto, os palavrões que utiliza nas anedotas) que fizeram com que o público tivesse exigido a sua permanência semanal. E, dentro do esquema limitado do programa, Fernando Rocha começou a ser uma estrelazita. A graça, infelizmente, é que nem sempre acompanhou essa sua estadia prolongada no programa: mas aqui até estamos dispostos a reconhecer que ninguém pode ser bom todos os dias.
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3997 de 4 de Outubro de 2013

