Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

São quase só desgraças, meu Deus!

Bernardo de Brito e Cunha

VOU FALAR da série que a RTP estreou no último domingo, “Os Filhos do Rock” que pretende fazer a história do boom do rock (não do Roque, para quem me entender…) português na década de 80. Convém explicar que, nessa altura da minha vida trabalhava numa editora discográfica portuguesa, talvez a mais retrógrada editora discográfica de sempre e durante muitos anos, e que paralelamente, escrevia para os jornais e revistas que o movimento ditou que aparecessem. Falo de publicações como “Disco – Música & Moda” (um título curioso), para o “Se7e”, para a “Música & Som” e de colaborações assíduas com a Rádio Comercial. Haverá outros, estes foram os mais importantes. Servem estes dois vectores profissionais para dizer que acompanhei de muito perto – tão perto que às vezes até por dentro – o movimento do rock português: e não me senti nem dentro nem ao lado do que o primeiro episódio nos mostrou.

EXCLUINDO a parecença física do jovem que interpreta o papel de Rui Veloso, tudo o resto me pareceu estranho, alienígena e mesmo de um outro planeta. Confesso que um primeiro episódio que arranca com uma legenda onde se lê “Três Anos Depois” me deixa boquiaberto: mas três anos depois de quê? Não percebi e a legenda não nos deixa situar no tempo. Podemos estar num ponto qualquer da história – só que não sabemos qual. Parecia ter sido realizado por Quentin Tarantino, com um fio de história que avança e recua a bel-prazer do realizador. O único problema é que Tarantino faz obras de ficção que permitem esses avanços e recuos e “Os Filhos do Rock” pretende, julgo eu, ser uma reconstituição daquele movimento. Pode ser que a coisa encarrile, daqui para a frente mas, para arranque, não podia ter sido mais confuso. Não que acredite muito: porque falando com Lena d’Água sobre este episódio, ela me disse “Espera até eu aparecer – e vais ver o que eles me fizeram.” E ainda acrescentou: “Sabes que ninguém falou comigo, a não ser a miúda que faz de mim?” Ora bolas: se não falaram com ela, será que falaram com os outros?

TENHO SEGUIDO, com alguma surpresa, o facto de “O Preço Certo” nas últimas semanas ter aparecido no Top 5 dos programas mais vistos. Esse Top é elaborado pela Marktest e não pela “oficial” GfK, pelo que podem ocorrer algumas diferenças. O problema é que “O Preço Certo” é um formato que não muda e, para além disso, está no ar há um ror de tempo. A única coisa que o mantém rejuvenescido, por assim dizer, é o talento e a capacidade de improvisação de Fernando Mendes. Mas, mesmo assim, como se explica que o programa atinja índices da ordem dos quase 10 por cento e, pelo menos uma vez, os 12? É um fenómeno quase inexplicável que só consigo justificar pelo facto de, sempre que lá dou uma saltada à procura de explicação, verificar que os programas emitidos são novos, transmitidos em directo, ao contrário do que foi hábito durante muito tempo, com repetições atrás de repetições. Mas isto chega para explicar este súbito renascer das cinzas?

PELA CALADA da noite, para quem tiver paciência de seguir a programação ou sofra de insónias, é provável que de vez em quando se depare, na SIC, com a reposição de uma série que dá pelo nome de “Aqui Não Há Quem Viva”. Na altura da sua passagem inicial, 2006, já não foi um êxito e nem sequer tinha a graça que os seus autores certamente tinham pretendido. Estes sete anos que passaram não funcionaram como o tempo geralmente actua sobre o vinho do Porto. Aquela história do dia-a-dia dos inquilinos e proprietários de um prédio http://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%A9dioem Campo de Ourique, que têm histórias de vida verdadeiramente confusas, não consegue convencer ninguém. E dá pena ver gente de talento metida numa coisa destas. É no que dá as pessoas terem esse terrível hábito de comer – e todos os dias, de preferência.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A verdade é que já não há paciência para as grelhas-tipo: ao fim de 15 dias sabemos de cor e salteado o que vai passar nas quatro estações e nem sequer vale a pena procurar o nome do filme da noite, porque o mais natural é que o alterem cinco minutos antes de começar – que o diga esse meu amigo de que vos costumo falar e que gravou um filme de que gosta muito completamente por engano… E, infelizmente, sabemos que mais de metade dessas grelhas são preenchidas com novelas. A SIC acaba de estrear mais uma, no horário da noite – espaço onde já tinha duas. Pensava eu, na minha ingenuidade, que acabava aquela história de ir às lágrimas que dá pelo nome de “Mulheres Apaixonadas” e começava a nova, “Celebridade”. Engano meu: esta última começou, de facto, mas a outra não terminou ainda… de onde resulta este limbo (espero que rápido) de três novelas por noite no canal de Carnaxide.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4007 de 13 de Dezembro de 2013.

Leave a Reply