José Jorge Letria
Não me recordo, em décadas de vida, de ter visto alguém gerar um tão amplo e comovido consenso na hora da partida como aconteceu nestes dias com Nelson Mandela, um herói da liberdade, dos valores do humanismo, da tolerância e da reconciliação que, com o seu exemplo, deu um decisivo contributo para a derrota do racismo em vários continentes e para que a humanidade percebesse que ainda há espaço para nos deixarmos render a quem, mesmo à margem de crenças e credos, é capaz de representar uma forma de transcendência e uma grandeza ímpar.
Nelson Mandela, nascido em Mvezo em 1918, morreu agora aos 95 anos, depois de ter passado 27 anos encarcerado, de ter sofrido a violência repressiva do “apartheid”, de ter sido Presidente da República de uma África do Sul democrática e de se ter afastado do poder depois de entender que a sua missão estava cumprida.
Foi um combatente e um líder de excepção que, em tempos, ouvi alguém que muito prezo comparar a Cristo pela capacidade de, recusando a violência, ter conseguido impor a paz entre os homens, a força da reconciliação e do diálogo, sem recorrer aos mecanismos da vingança que o Estado punha amplamente ao seu alcance.
Mandela, era um príncipe africano, um aristocrata de imensa força espiritual que se agigantou, mesmo estando retirado da cena política, no meio de um cena internacional minguada de estadistas credíveis e fortes e num tempo esvaziado de valores tão fundamentais como a seriedade, o respeito pela palavra dada e a solidariedade activa com os mais desfavorecidos. Tudo isto fazia parte da prática e do código de honra e de ética de um homem que o “apartheid” criminoso não conseguiu eliminar fisicamente, embora várias vezes o tivesse tentado, nomeadamente através de uma condenação a prisão perpétua.
E é impressionante ver e ouvir hoje políticos que estiveram contra a sua libertação a manifestarem o seu pesar, vertendo aquilo a que a tradição oral africana chamou, desde sempre, lágrimas de crocodilo.
Nelson Mandela, já o disse, foi um gigante e um homem para a eternidade. Nenhum outro, nem mesmo Rossevelt ou Churchill, John Fitzgerald Kennedy, o Mahatma Gandhi ou o próprio João Paulo II, conseguiram gerar um tão dilatado consenso assente na admiração, no respeito, no próprio amor. Na verdade, a humanidade rendeu-se, à escala global, à grandeza deste homem que não pertencia ao mundo da religião e que estava afastado dos palcos e dos corredores da política. Foi, também nesse aspecto, um caso de amor retribuído.
Nelson Mandela, cuja morte era há muito esperada, tendo-se em conta o seu muito precário estado de saúde, foi dos líderes políticos e espirituais mais amados pelos artistas de todo o mundo, designadamente os da música, que o celebraram em grandes e inesquecíveis concertos. Foi também dos líderes sobre os quais mais grandes figuras intelectuais escreveram. Foi o caso do ex-ministro da Cultura de França, Jack Lang, que publicou sobre ele um livro de leitura obrigatória, em que analisa o seu percurso como político, estadista e homem de pensamento e acção.
Conseguiu Nelson Mandela demonstrar que o perdão não é rendição e que a reconciliação não é sinal de fraqueza ou de capitulação. Muito mais do que um grande político forjado nos combates pela liberdade e no sofrimento de uma longuíssima reclusão, Nelson Mandela foi um grande líder espiritual e de civilização. Por isso será lembrado depois da morte como já foi celebrado em vida, como um homem livre e capaz de vencer o esquecimento e a controvérsia, rumo à eternidade. Assim aqueles que se opuseram nos anos oitenta do século XX à sua libertação conseguissem deixar um rasto de admiração e saudade que fosse para além das portas do cemitério no dia das despedidas oficais. Mas, Mandela houve só um e as gerações vindouras hão-de lembrá-lo sempre e para sempre.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4007 de 13/12/2013

