Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Abril 20th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Bonecos da bola, ponto por ponto

Bernardo de Brito e Cunha

A QUESTÃO dos direitos televisivos da Liga dos Campeões para o triénio 2015-2018 comprados pela RTP deu imenso que falar nos últimos dias e, tanto quanto me parece, estas são as principais posições (algumas bem bacocas):
A TVI disse, no dia 19 de Novembro, estar “estupefacta”. Não me surpreende, porque tendo tido esses direitos durante os últimos anos e convencida como está de que é a “dona disto tudo”, estupefacção até me parece pouco: é aquilo a que se chama “contar com o ovo no coiso da galinha”. A estação privada argumentou que a RTP apresentou uma proposta de 18 milhões de euros, 40 porcento acima da apresentada pela TVI. A televisão de Queluz disse que a proposta da estação pública “distorce o mercado.”

O ministro da Presidência, Marques Guedes, na quinta-feira, dia 20 de Novembro, no final da reunião de Conselho de Ministros, afirmou que “os dinheiros públicos, do ponto de vista do Governo, não deveriam ser aplicados na compra de direitos de transmissão de jogos de futebol.”

Mas como Marques Guedes se esquecera, a RTP defendeu-se dizendo que “nunca incorreria em custos extraordinários com a aquisição de programas”, e lembrando o despacho do gabinete de Poiares Maduro que classificava os jogos da Liga dos Campeões como “de interesse generalizado do público”.

O ministro-adjunto, Miguel Poiares Maduro, que estava em Bruxelas quando a polémica rebentou, não participou naquela reunião do Conselho de Ministros e optou depois por se remeter ao silêncio. Mas dá ideia de que o entendimento do ministro-adjunto é o de que a desgovernamentalização que quis imprimir faz com que uma decisão como a de comprar transmissão de jogos seja matéria exclusiva da RTP e que isso não tem que ser comunicado ao Governo. Poiares Maduro, no entanto, ficou surpreendido com a decisão da RTP, pois a administração tem-se queixado de dificuldades financeiras, e considera que a administração devia ter dado conhecimento ao Conselho Geral Independente, o que não fez.

O Conselho Geral Independente, em comunicado, disse que os direitos de transmissão da Liga dos Campeões são uma questão de “natureza estratégica” e por isso o Conselho só se poderá pronunciar sobre ela depois de assinado o Contrato de Concessão de Serviço Público de Rádio e Televisão.” Na última segunda-feira, dia 1 de Dezembro, o CGI chumbou o Plano Estratégico da RTP…

A estação pública conseguiu negociar com a UEFA os direitos de 13 jogos da liga milionária, mais os direitos de rádio e Alta Definição (HD), deixando de fora, voluntariamente, os direitos de Pay TV para a SportTV. Com isso, a RTP vai pagar pelo pacote máximo o valor definido para o pacote mínimo de jogos, ou seja, um valor próximo dos 15 milhões de euros.

Como não podia deixar de ser, o vice-primeiro-ministro Paulo Portas fez uma declaração ao Expresso: “Tenho dificuldade em compreender como é que uma empresa pública que se está a reestruturar e é financiada pelos contribuintes decide gastar recursos num mercado que em condições normais pode ser assegurado pelo sector privado”. Ele tem dificuldade em compreender isto como tem dificuldade em perceber muitas outras: mas talvez se ele pensasse em receitas publicitárias e afins se pudesse fazer a luz. E porque se há-de dar esse dinheiro ao sector privado se a RTP precisa mais?

SÓ UMA coisinha mais. Todos sabemos que a SIC adoptou há muito o sistema de, pelo menos, três novelas por noite. E que ainda não abandonou essa coisa um pouco antiquada que é ter uma voz off nos intervalos. Mas não é que, noite após noite, essa alminha diz, por três vezes a mesmíssima frase? E que é “Não perca um novo e intenso capítulo da novela [colocar nome a gosto]”. Um pouco de imaginação, não há?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Tenho para mim que a classe jornalística a que pertenço – e contra mim falo, como se percebe logo – é de uma ingratidão sem nome. Presumo que queiram saber do que falo: pois refiro-me aos títulos, artigos e prosas de opinião avulsas que, mais ou menos nas entrelinhas, atacam o senhor primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes. Depois de esclarecido este ponto, vem a pergunta: “E então não deveriam atacar? Não é ele um primeiro-ministro de segunda categoria, que tem posto isto (por “isto” entenda-se “o país”) ainda mais de pantanas do que ele já estava?” E a resposta, naturalmente, será um rotundo e estrepitoso “Claro que sim!” Mas deveríamos, por outro lado, tratá-lo – apesar de todas as malfeitorias – com todo o carinho e afecto. Porquê? Porque este governo – e o homem que o encabeça – deve ser único no mundo. Um primeiro-ministro que empossa um ministro que nem consegue aquecer o lugar (nem, tão pouco, ter tempo para nomear secretários de estado) é coisa de Livro de Recordes do Guinness.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4052 de 5 de Dezembro de 2014.

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