José Jorge Letria
A consagração pela UNESCO do “cante” polifónico alentejano como património imaterial da humanidade representa uma forma de reconhecimento internacional da cultura portuguesa numa das suas expressões mais profundas e enraizadas do ponto de vista associativo. Na verdade, existem actualmente mais de 150 grupos que praticam esta forma de expressão musical e que, com este novo e encorajador estímulo, irão certamente multiplicar-se e apurar estilisticamente a sua prática que, embora sendo amadora, tem um elevado grau de exigência artística.
A UNESCO decidiu e decidiu bem, precisamente três anos após a consagração do fado precisamente pela mesma via. Deste modo, embora num plano artístico distinto, muita gente por esse mundo fora irá perceber que do ponto de vista musical Portugal não é só fado e que esta polifonia popular se encontra estruturalmente ligada a formas de organização e de combate social que se confundem com a vida colectiva dos alentejanos, tantas vezes esquecidos, preteridos e explorados.
Na realidade, sempre que vemos um grupo de cantores alentejanos em palco a interpretar a sua música tradicional percebemos que ele simboliza a vida e a luta de muitos homens e mulheres ao longo de décadas, nas condições mais adversas. Algumas formas deste canto polifónico, normalmente designado por “cante”, estão mais ligadas à vida e à luta dos mineiros, outras à actividade dos apanhadores de trigo e outras ainda do sector vinhateiro, que não tem parado de se desenvolver com qualidade e reconhecimento internacional.
Agora é importante que se agreguem novas formações, que se ganhe a juventude para este projecto, que ele seja devidamente integrado numa grande estratégia de promoção turística da região e que as várias autarquias alentejanas cooperem sem preconceitos na criação de uma dinâmica regional que ganhe expressão nacional e valorize todo o Alentejo e o próprio país em termos internacionais. Existem todas as condições para que tal venha a acontecer, caso não triunfe perversamente o sentido feudalizante que, por vezes, leva uns a pensar que têm autoridades inquestionáveis e legitimidades absolutas.
Urgente, nesta fase, é definir o que vai ser o futuro sem que todos queiram subir ao palco ao mesmo tempo e dizer que a liderança do processo é de uns e não de outros. A candidatura foi estruturada com grande competência e rigor, contando com colaborações e contributos valiosos.
Não duvido de que os grupos de cantar alentejano que se encontram espalhados pela Europa e pela América, no seio das comunidades de emigrantes portugueses, irão ganhar uma alma nova e sentir o desejo de chegar mais longe com os seus temas e a sua estética interpretativa. Falo das formações amadoras que trabalham com paixão nas horas de ócio e que fazem do acto de cantar uma atitude libertadora e de reforço da coesão comunitária. Não é preciso nem possível que queiram agora tornar-se profissionais, mas precisam de uma atitude mais consentânea com a expectativa que a decisão da UNESCO veio criar ou fortalecer.
Mais uma vez foi a cultura que deu a Portugal uma visibilidade e um prestígio que lhe têm sido retirados por sectores estratégicos tão importantes como os da política, da economia e das finanças, atingidos pelos dramáticos problemas que todos conhecemos.
Conhecer melhor o “cante” alentejano será um modo de conhecer em detalhe a vida de um povo orgulhoso, valente e trabalhador que não parou de levar pelo mundo, nos vários ciclos migratórios, a crónica dolorosa de vidas arrancadas à terra para conseguirem sobreviver noutras paragens, por vezes nas condições mais dolorosas e penalizadoras.
Refira-se ainda o papel desempenhado em torno desta candidatura por cantores alentejanos como Vitorino e Janita Salomé, entre outros, que, nunca deixaram de assumir o seu orgulho cultural por serem de uma região que tão profundamente marcou os seus repertórios e a sua forma de estarem na vida e no mundo.
Através da vontade política da UNESCO, o “cante” alentejano ganhou asas mais largas e viu abrirem-se as portas para outros horizontes culturais e sociais. O Alentejo é uma das mais belas e surpreendentes regiões da Europa e, com esta música em fundo, muitos virão saborear a excelência desta oferta que inclui, para além da música, a gastronomia, o património e uma forma identitária de estar no mundo e de conviver com os outros. Os dados estão lançados. Que não perca agora quem já ganhou o fundamental, com aplauso e orgulho.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4052 de 5 de Dezembro de 2014

