Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Coisas diabólicas que a minha TV mostra

Bernardo de Brito e Cunha

TENHO um daqueles serviços de televisão modernos, todo o mundo ao alcance de um comando, pormenores escritos no ecrã a descrever o que se vê, e de quando é, e se queremos ver do princípio, e o que já deu antes e ainda vai dar a seguir. Modernices sem as quais não passamos, assim que nos habituamos a elas. Este esquema deve dar trabalho a fazer – mas ao menos é um posto de trabalho que se criou – uma vez que é preciso escrever tudo aquilo que potencialmente vamos poder querer ler: como se chama este filme no original, de que ano é, um resuminho da história para nos situarmos e ainda quem realizou e que actores nele participaram. É verdade que isto nem sempre é muito bem feito, tem incorrecções: às vezes aparecem os actores secundários e não os principais, mas enfim. Mas nunca tinha reparado, como no domingo passado me aconteceu, que quando quis procurar informação sobre um programa estando a dar a missa na TVI, que aquela espécie de teletexto me saltasse logo com a seguinte informação: “Eucaristia Dominical – Temporada 1 – Episódio 9” como se tudo aquilo não passasse de uma série…

PAULO DENTINHO e João Paulo Baltazar são os novos directores de informação na estrutura da estação pública, assumindo, respectivamente, as áreas da televisão e das rádios. A direcção de programas fica nas mãos de Daniel Deusdado, até aqui na produtora Pequeno Farol. Os nomes aguardam apenas a aprovação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), na sequência das alterações à estrutura directiva impulsionada pela nova administração liderada por Gonçalo Reis e Nuno Artur Silva. O correspondente da RTP em Paris passa assim a director de informação da RTP, enquanto o antigo jornalista da TSF (que foi notícia há uns meses por ter sido dispensado desta rádio) assume a informação das rádios do grupo, cujas direcções se mantêm com Rui Pêgo (Antena 1, Antena 2 e RDP Internacional), com excepção da Antena 3, que passa a ser liderada por Nuno Reis. E refiro isto porque sempre que muda a direcção da RTP renasce em nós a esperança de que a nossa televisão seja efectivamente isso, nossa, e cumpra a sua missão de serviço público. Bem sei que é apenas uma esperança – mas é melhor do que nada…

FALEMOS de novelas. Começa a tornar-se um hábito (ia escrever “repugnante” e fui a tempo) ver que tentar atrair espectadores para um programa novo, neste caso uma novela, se faz cada vez mais oferecendo dinheiro. Desta vez, a TVI parece ter-se excedido, porque o valor dos prémios ascendem, dizem as promoções, a meio milhão de euros. Essas promoções garantem-nos ainda que a novela “A Única Mulher” foi a mais cara produção do canal. No entanto, apanhei há uns dias, na própria TVI, o Dr José Eduardo Moniz a dizer que “Trata-se de um produto raro. Há muito investimento, muito empenho e há o esforço de diversificação de espaços de gravação da novela como há muito não via”. José Eduardo Moniz falava à margem da festa de lançamento da novela e, ainda à imprensa, o consultor da ficção TVI afirmou que “A Única Mulher” é “provavelmente o maior investimento desde “Equador”,” série transmitida em 2008.

E NO DIA seguinte lá estavam os serviços noticiosos da TVI a dar conta do estrondoso êxito de audiências da novela. Serviços noticiosos esses que, ao segundo dia, se calaram pois a novela passara para segundo lugar, permitindo que uma outra novela, “Mar Salgado” da SIC, voltasse a ocupar o primeiro. Como tem acontecido com regularidade. Estará a TVI a deitar dinheiro fora? Não perca os próximos capítulos!

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Dizia o meu amigo Manel – que esteja bem, onde quer que seja – sempre que se referia ao actor Steven Seagal, que era “o duro de falinhas mansas”. E se todos os políticos são, genericamente, homens de falas mansas, a verdade é que Luís Filipe Menezes (com “z”, com “s”?) optou na “Grande Entrevista” com Judite de Sousa, a semana passada, por um tonzinho de voz tão insinuante e calmo, que o torna o rei das falinhas mansas. Eu disse insinuante e calmo? Pois enganei-me: o que eu queria escrever era “baixo”. É que o tom de voz era tão baixo que grande parte das coisas que disse mal se ouviram. É certo que ele não queria que muitas dessas coisas se ouvissem: foi o caso das contradições que Judite lhe Sousa lhe apontou, coisas que dissera no passado e que agora faz precisamente ao contrário. A realidade é que é fácil dizer cobras e lagartos de não sei (no caso era Rui Rio), dizendo que isso foi feito em termos pessoais e depois, invocando o interesse do partido, dar todo o seu apoio a esse mesmo candidato.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4064 de 20 de Março de 2015

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