Lava, mandioca e o Sr. Ernesto

Porque é que alguém decide viver perto de um vulcão activo? Foi esta a questão que durante a minha estadia na ilha do Fogo, em finais de Dezembro de 2014, fui repetindo aos foguenses com quem me ia cruzando. As respostas dos habitantes de S. Filipe, a capital da ilha, apontavam como principal razão a fertilidade da terra: “Duas colheitas num ano”, “Dá tudo, maçã, mandioca, feijão, até uva”. Por outro lado, as respostas dos habitantes da Chã das Caldeiras, divergiam de forma assinalável, focando mais a dimensão da identidade e pertença: “É nôs terra”.

O que é a Chã das Caldeiras? A colossal cratera, com quase 9 km de diâmetro, de um vulcão chamado ilha do Fogo; que se ergue desde o leito oceânico, 4 km abaixo do nível médio das águas do mar e ascende quase aos 3 km de altitude, no cume do Pico do Fogo. Em crioulo caboverdiano “Chã das Caldeiras” é a “Tchãn”. Ambos os nomes designam um lugar onde as variações linguísticas parecem não se resumir aos dialectos humanos. Na Tchãn, é a própria paisagem que parece falar um outro idioma. Enquanto no português europeu “falésia”, designa um acidente geográfico como por exemplo, o Cabo da Roca em Sintra, na Tchãn, quando a terra quer pronunciar “falésia”, diz “bordeira” – escarpa com 1000 metros de altura.
Na manhã do dia 19 de Dezembro de 2014, a caminho do que restava das aldeias de Portela e Bangaeira, passei pela pequena povoação de ilhéu de Losna. Uma frente de lava, lentamente, engolia várias construções e os campos de cultivo circundantes. Era, vim a sabê-lo mais tarde, as instalações da adega Sodade, uma das principais produtoras de vinho da Chã. O ambiente era de confusão. Fumo, calor, vento. Carrinhas paravam na estrada. Elementos da Protecção Civil caboverdiana controlavam o avanço da lava. Uma equipa de reportagem televisiva recolhia imagens. Cheira a enxofre. No campo em frente à adega, indiferentes a toda a confusão, dois homens trabalhavam sem parar. A lava estava tão próxima que era possível sentir-lhe o hálito de dragão. Mas os dois homens, alheados, continuavam a cavar a terra. Aproximo-me e tento interpelar um deles. “Posso fotografar? Posso falar consigo?” Sei que me ouviu, porque me olhou de relance, mas sem hesi¬tar um instante, continuou a empurrar um carro de mão cheio de mandioca e sem dizer uma palavra, disse-me: “Não tenho tempo para conversa nem fotografias”. Aproximo-me do outro homem, mais velho. Temo a mesma indiferença, e reparo então no emblema do boné vermelho com que se protegia da força do sol: “O senhor é do Benfica?”. Um sorriso largo respondeme que sim, mesmo antes de ele confirmar. “Também eu!” Movendo-me o mais depressa possível para longe da afinidade clubística, perguntei: “Esta casa é sua?”. Não era. Era de um primo que estava deslocado em Cova Figueira e lhe havia pedido para vir colher toda a mandioca que conseguisse. Como se chama o senhor? “Eugénio Lopes.” A erupção levou-lhe alguma coisa? “Tinha casa, eu perdi; terreno, também o perdi”. O que é que o seu coração sente? “Sinto muito triste. Mas não temos qui fazer, porque é a natureza de Deus. Tudo o qui Deus faz, é bom”. Quando me preparava para lançar a pergunta: “Porque é que decidiu viver aqui, perto de um vulcão?”, um rumor de vozes exaltadas interrompe a entrevista. O homem do carro de mão e outros dois discutem acesamente. Um dos outros, um jovem, segura um saco de plástico contendo um pé de videira. A lava está a alguns metros de um pequeno viveiro de plantas onde estão macieiras e pés de videira, e de onde o mais jovem havia subtraído a planta que segurava. De repente, um gesto compensa a minha falta de compreensão do crioulo. Violentamente, num misto de desprezo e raiva, o pequeno saco de terra é atirado ao chão. Acabou-se a discussão. Viram costas. Porque fez ele aquilo? E porque não podem eles levar a videira, se todas as que ali estão vão arder?
O Sr. Ernesto, que também observara a cena, explicou-me o que se aca¬bara de passar. O homem do carro de mão, que o estava a ajudar a colher a mandioca, era um guarda, contratado pelo seu primo para impedir que levassem coisas da sua propriedade. Mas porque não vem ele buscar o que está nas casas? Já havia tirado todo o vinho e tudo o que queria. Não precisava do resto. Mas se vai ficar tudo debaixo da lava, porque é que não deixa os outros levar? “Eu vem para ajudar, para socorrer. Mas eu não posso fazer coisas que mão me autorizam. Eu queria tirar. Eu falei com guarda mas ele me disse para não tirar”. Entretanto a lava chegou ao viveiro das plantas. De relance, vejo os pés de videira a arder. Apontando para a máquina fotográfica, o Sr. Ernesto diz: “Desculpe, vou ter de fazer pó”. Era uma forma gentil de me dizer que a entrevista acabou e que tinha de continuar o trabalho. Agradeço e afasto-me. Reparo que um dos homens envolvidos na discussão de há pouco, observava ao longe. Quando me afasto do Sr. Ernesto, para fotografar, ele aproxima-se de mim e agarrado-me com força pelo braço, diz-me num crioulo que se esforçava compreensível: “Sabi o que é isto? Sabe o que é isto sinhor? Maldadi no coraçon”. E os olhos brilhavam-lhe de ira. Não me disse mais nada. Largou-me o braço e seguiu para um carrinha na estrada. Aquele homem sabia que eu estava ali como jornalista. Não tendo conseguido ficar com a videira nem com nenhuma das outras coisas, ao menos queria deixar uma palavra sua na história. E que palavra. Não é só nas profundezas da terra que existe magma. Também existe no coração humano, na profundidade do nosso ser. Ganância, ira, raiva, cobiça, são alguns dos nomes que damos a essa lava. Quem é que tem razão numa história assim? Todos e ninguém.

E eu que pensei ter encontrado uma história inspiradora sobre a abnegação de dois agricultores da Chã das caldeiras. Na verdade, a história também é sobre isso, mas não é só isso, era terrivelmente mais do que isso. Pelos vistos, até na Chã das caldeiras existe o “Après moi, le déluge”.
Entretanto o guarda voltou com o carro de mão vazio e começou a recolher a mandioca que estava no chão. Junto à escoada de lava, um arbusto range e silva de uma forma tão perturbadora que não consigo parar de o fotografar. É um arbusto de Losna, ou segundo a classificação científica Artemisia gorgonum, planta endémica de Cabo Verde, utilizada para fins medicinais e que aqui, na Chã, deu também o seu nome a uma pequena povoação – ilhéu de Losna. De repente, num clarão, o arbusto incendeia-se.
Antes de seguir caminho, volto a aproximar-me do Sr. Ernesto e pergunto:
Porque é que fazem a vossa vida tão perto de um vulcão? Vem a lava e destroi tudo. Para quê? O Sr. Ernesto parou um momento, e respondeu: “E quem não vive dessa maneira? Vem um acidente, vem um doença, e isso é lava também”.
Chamaram-me de uma carrinha, era a boleia que me ia levar até ao que restava das aldeias de Portela e Bangaeira. Despedi-me e lá fui.
Antes dos campos de Ilhéu de Losna desaparecem atrás do monte, a última imagem que guardo, e que escolhi não fotografar, é a do Sr. Ernesto, ao longe, a cavar uma terra que não era dele, com a lava cada vez mais perto, sem desistir nem vacilar. Ghenti braba a ghenti di Tchã. Gente com lava no coração.
Luís Santo Vaz, colaborador do Jornal de Sintra, numa deslocação a Cabo Verde
Publicado no Jornal de Sintra, ed. 4064 de 20 de Março de 2015

