Agora (mesmo) a sério
Bernardo de Brito e Cunha
CONFESSO que o que me atraiu para a série de humor “Agora a Sério” da RTP1 foi Alberta Marques Fernandes a escangalhar-se a rir em directo e a dizer, sem poder conter o riso, qualquer coisa como “isto não me está a correr nada bem”. E depois, ao ir vê-la, fiquei desarmado com a catadupa de graças e trocadilhos com que os autores do texto (Henrique Dias, Frederico Pombares e Roberto) nos torpedearam, verdadeiramente. É verdade que, com o correr dos episódios, essa avalanche foi diminuindo mas, mesmo assim, o seu volume era considerável.
Confesso também que, durante os seis ou sete primeiros episódios, me ri como não me ria há muito tempo: quando, naquele jornal, um jornalista pergunta à directora que espaço é que tem (para um artigo, naturalmente) e ela responde que tem um T3, não posso deixar de soltar uma gargalhada. E quando, logo a seguir, o jornalista lhe pergunta quem é que faz a revisão (do texto) a directora Filipa Morais responde com um “Isso é o meu marido que trata”. É possível ficar sisudo e impávido com isto? Não me parece. Foram tiradas sucessivas que me fizeram vir as lágrimas aos olhos.
O QUE ME DEIXOU surpreendido, também, foi que a série tenha sido produzida pela RTP Porto e, sobretudo, que o tenha sido em 2012 e anunciada como parte da nova grelha de programação da RTP1 em Janeiro de 2013, o que acabou por não acontecer. Em Agosto do mesmo ano foi anunciada uma nova data como dia da estreia da série: 7 de Setembro, o que acabou novamente por não acontecer. Já depois da estreia da novela angolana “Jikulumessu”, de que já aqui se falou, a RTP1 anunciou primeiro o cancelamento desta, mas depois uma mudança de horário, lá para as horas em que as pessoas trabalhadoras já dormem. Assim, “Agora a Sério” ocupou a antiga faixa horária da novela, ficando encaixado entre o “Quem Quer Ser Milionário? – Alta Pressão” e o talk show “5 para a Meia-Noite”. Também surpreendente é que o “Agora a Sério” seja transmitido apenas três dias por semana, de quarta a sexta: que sentido faz isto? Pergunta absolutamente retórica, porque o programa, de que apenas foram feitos 13 episódios, deve estar a acabar por estes dias…
E AINDA TEMOS o elenco, quase todo ele hilariante. Ana Brito e Cunha é a directora de “O Matutino” com grande falta de perspicácia e de agilidade mental, Luís Aleluia é Mascarenhas, o jornalista “veterano”, Samuel Alves é Gonçalo, o jornalista eternamente a recibos verdes, Carlos Areia é Venâncio, proprietário do “Venâncio’s”, o bar onde a redacção se reúne (e que tem sempre histórias e das melhores que já ouvi) e ainda Ricardo Castro, o melhor amigo de Gonçalo e Carla Salgueiro, secretária da redacção e grande paixão de Gonçalo. A série, pretendendo retratar um país decadente e em fanicos, descobre e serve-se dos novos estereótipos sociais para criar uma identificação comum na dificuldade em que os jovens têm em se encaixar no mercado laboral.
E DEPOIS, coisa com menos graça, temos a Grécia. À hora a que escrevo o destino do país joga-se não só no Parlamento grego, mas também na insistência do FMI (certamente com vários pesos na consciência pelo que tem vindo a fazer a diversos países) junto da União Europeia para que esta perdoe uma parte mais substancial aos gregos. Caso isso aconteça, o FMI não se mostra disposto a participar no terceiro resgate. Todas as negociações foram vergonhosas e humilhantes para os gregos, com Schäuble a comandar os restantes países do Eurogrupo (os tais 19 que sem a Grécia ficam a ser 18, como diz o infalível Cavaco Silva), todos eles com vontade de correr com a Grécia – ou, pelo menos, com a vontade de transformar o país na sua praia privativa. Ainda bem que a mente privilegiada de Passos Coelho contribuiu para a solução do problema…
Fazem falta, um par de séculos depois, uma série de Lordes Byron, já nem tanto para combater contra os Turcos, mas para defender os Gregos dos seus “irmãos” europeus. Como muitos disseram, a reunião de domingo, que durou 17 horas, foi um golpe de estado: não com tanques, como é clássico, mas através dos bancos.
À hora a que escrevo, dizem as tele¬visões que a presidente do Parlamento grego, Zoe Konstanto¬poulou, voltou a apelar ao Governo para que não aceite a chantagem dos credores para um acordo em que já nem o FMI acredita e acrescentou que “a política imposta pela Alemanha é crime contra a Humanidade”. Uma vergonha e um aviso para todos os europeus: o IV Reich está a caminho.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A Europa é, agora mais do que nunca, um centro da ameaça. Por um lado, porque as nações europeias como o Reino Unido têm uma tradição de bom acolhimento aos imigrantes vindos do Norte de África e do Paquistão. Os filhos desses imigrantes, muitos dos quais sem emprego e metidos em guetos que são verdadeiras ilhas suburbanas, sentem-se estranhos na permissividade de Londres ou Paris. Estranhos e aborrecidos: a taxa de desemprego de muçulmanos entre os 16 e os 24 anos, em Inglaterra, atinge os 22 por cento. E numa informação que veio a público o ano passado no Sunday Times, um número situado entre os 10 e os 15 mil de muçulmanos que vivem em Inglaterra, apoiam a al-Qaeda e grupos semelhantes.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra ed. 4080/81 de 17 de Julho de 2015.

