Semanário Regionalista Independente
Domingo Maio 31st 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

No sofá do terapeuta da RTP

Bernardo de Brito e Cunha

“TERAPIA” é a nova série diária da RTP1 que vai para o ar, ao final da noite, na estação pública. Adaptada a partir da versão norte-americana de um original israelita, a produção destaca-se pela sua estrutura narrativa pouco convencional. Emitida de segunda a sexta-feira, conta com 45 episódios, e cada dia da semana se foca numa personagem diferente. Colocá-la depois de “Bem-vindos a Beirais” é que poderá afastar uma larga fatia de espectadores…
Mário Magalhães (Virgílio Castelo) é um terapeuta que segue quatro tratamentos psicoterapêuticos em curso no seu consultório: é a personagem mais apelativa e a única com duas iniciais iguais, os MM. À segunda-feira acompanhamos a história de Laura Dias (Soraia Chaves), uma mulher frágil e com um casamento à beira do fim. Na terça-feira, Alexandre Gomes (Nuno Lopes) senta-se no sofá do terapeuta. À quarta, Sofia Cruz (Catarina Rebelo) revela a sua vida ao profissional. Na quinta-feira, o casal Jorge e Ana Velez (Filipe Duarte e Maria João Pinho) são ouvidos por Mário. E à sexta-feira, é a vez de Mário expor os seus problemas com a mulher Catarina (Leonor Silveira) à psicóloga Graça Ribeiro (Ana Zanatti).

SORAIA CHAVES foi a primeira surpresa da série: mostrou, na estreia de “Terapia”, que é muito mais do que a menina bonita de alguns filmes portugueses. Até porque consegue interpretar aqui aquela que é, provavelmente, a personagem com maior profundidade da sua carreira e que mais atenção receberá por parte de quem assiste à série. Afinal, todos nós, espectadores, somos uma espécie de terapeutas e durante trinta minutos estamos concentrados nos seus dramas de vida.

HABITUALMENTE, um dos pontos que distingue a linguagem cinematográfica da televisiva é o guião. No grande ecrã, uma cena procura transmitir o máximo de sensações através do olhar, dos gestos ou simplesmente da cumplicidade entre duas personagens. Em “Terapia”, o texto adaptado por Mário Cunha não cai em clichés, nem domina por completo a cena. É bastante visual e descritivo, mas é também intenso e surpreendente. Aqui o que interessa é a forma como este texto é interpretado, é a expressividade do paciente e as reacções do terapeuta que nos prendem ao que é contado. Neste aspecto, também o trabalho das directoras de elenco Cristina Carvalhal e Sara Carinhas é fundamental. “Terapia” é claramente um produto de excelência num mar de novelas que se limitam a suceder umas às outras – apesar da grande evolução técnica que este género tem vindo a conseguir.

TECNICAMENTE, “Terapia” é do melhor que já se fez em Portugal. Também André Szankowski, responsável pela fotografia da série, contribui (e muito) para a qualidade visual do produto. Director de fotografias de projectos como “A Gaiola Dourada”, “As Linhas de Wellington” ou “Mistérios de Lisboa”, Szankowski volta a mostrar o quão importante é a fotografia na definição de uma história audiovisual. Patrícia Sequeira, a realizadora, encontra neste projecto um trabalho facilitado e, ao mesmo tempo, desafiante. Uma vez que os episódios se passam na sala onde decorrem as sessões, os planos utilizados variam apenas na sua escala, intercalando entre alguns gerais ou outros mais fechados que se concentram nas personagens. O desafio é tornar, por isso, a história visualmente interessante e captar todos os pormenores nas emoções de cada um.

AFINAL, durante trinta minutos estamos simplesmente a ver alguém a falar e a contar a sua vida a outra pessoa, quase sempre sentados, no mesmo espaço. Então o que nos cativa? Talvez seja isso mesmo, o facto de estarmos a ouvir a história de alguém, contada na primeira pessoa. É como se estivéssemos, de uma forma quase ilícita, a assistir a este diálogo tão íntimo e privado e é esta vertente que nos prende ao ecrã. Quando vemos “Terapia”, percebemos de imediato que estamos a ver uma daquelas séries de excelência, que normalmente só se fazem “lá fora”.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Tozé Martinho já tem um currículo invejável no campo da escrita de novelas em Portugal: a primeira novela portuguesa, “Vila Faia” (1981), contou com a sua participação. Depois seguiram-se “Origens” (1983), “Palavras Cruzadas” (1986), “Roseira Brava” (1995), entre outras que foram exibidas na RTP. Já para a TVI escreveu quase um enredo por ano: “Todo o Tempo do Mundo” (1999), “Olhos de Água” (2001), “Amanhecer” (2002), “Baía das Mulheres” (2004) e agora “Dei-te Quase Tudo”, que veio substituir “Ninguém como Tu”. O currículo será invejável – mas em termos de extensão. É que nenhuma destas novelas, excluindo a novidade de “Vila Faia” e o sucesso de audiências daquele vale de lágrimas que rodeava a história das gémeas de “Olhos de Água”, uma rica e outra pobre, trouxe alguma coisa que se impusesse pela qualidade e que contribuísse para “puxar” pelas novelas portuguesas.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4101 de 15 de Janeiro de 2016

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