Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”


Shakespeare contra as novelas cá da terra

Bernardo de Brito e Cunha

A RTP homenageia William Shakespeare com cinco peças de teatro do dramaturgo, no ano em que se assinala 400 anos da sua morte Considerado o dramaturgo mais influente do mundo, Shakespeare é autor de 38 peças, 154 sonetos, 2 longos poemas narrativos e diversas poesias. Os seus textos foram adaptados em todo o mundo e, ainda hoje, são motivo de inspiração na produção de conteúdos para televisão, cinema, literatura e teatro. Em 2016, assinalam-se os 400 anos da morte de William Shakespeare e a RTP2 está a homenagear o escritor/dramaturgo com a emissão das suas mais importantes obras.

ESTREOU no passado sábado, na RTP2, esta evocação de Shakespeare, no mês exacto dos 400 anos da sua morte. Quatro peças integrais, produzidas pelo Globe Theatre. A primeira, “Romeu e Julieta”, fez 1,6 de share: bem abaixo do share da estação, sim. E a fazer a RTP2 perder um pouco mais face aos inúmeros canais do cabo, também. Sabe muito bem a Teresa Paixão, directora de programação da RTP2, o que poderia programar para ter mais audiência naquele dia e naquele horário. Mas esta foi a opção e nesta escolha se sintetiza o dilema e o sentido da selecção do Serviço Público de Televisão no tempo presente.

É UMA escolha que, não sendo fácil, visto que a frieza dos números será sempre usada contra a RTP, é pelo menos muito clara e evidente neste caso. Noutros casos e noutros canais, entre outros conteúdos, ela não será tão evidente, mas o dilema essencial será o mesmo. E a mesma opção deverá ter lugar: escolher o que fizer mais sentido na estratégia do Serviço Público. E se tiver custos de audiência imediata, que assim seja. Convém não confundir esta opção com não ter ambição de audiência. E, sobretudo, não se fecharem numa lógica autista de desconhecimento dos públicos e da maneira como eles estão a mudar.

E, NATURALMENTE, promover-se cada programa procurando o seu público potencial e a melhor maneira de o seduzir: receio apenas que a RTP não promova a “2”, de uma maneira geral. Como foi feito neste caso, em antena e nas escolas de actores do país, por exemplo, o que talvez seja curto. Mas este é um longo e necessário caminho. É preciso tempo. A precipitação é inimiga da urgência. Já agora, 1,6 são sensivelmente 45.000 pessoas. Sim, quase 50.000 pessoas viram Shakespeare na RTP2. Nada mau. Serviço Público. No próximo sábado, “A Tempestade”. RTP2 às 21.45.

E ÀS VEZES, ao ver as novelas que são transmitidas, umas atrás das outras pelas televisões privadas, sinto-me um pouco como Pedro Camacho, o escritor de rádio novelas do romance de Mário Vargas Llosa “A Tia Júlia e o Escrevedor”, tal a confusão de personagens que misturamos, eu e ele, por razões obviamente diferentes. Ele, por as escrever às dúzias, em resposta às necessidades de programação da rádio para que trabalhava (a história passa-se numa altura em que existia apenas a rádio e não a televisão) e eu porque elas, as novelas, são muitas e as personagens ainda mais, naturalmente. Mas é perturbador ter de fixar tantos nomes de caracteres e orientarmo-nos no meio de toda a confusão. Quem matou Marina, quando pretendia era matar o filho? Terá sido o Sousa e Ataíde, o velho, que foi morto entretanto? Ou Catarina, a má da fita de serviço? Ou o chef do Sirga, já que não existe mordomo em nenhuma delas? Ou terá sido Macário, o homem que já vimos “limpar” uma série de pessoas? Ou a personagem de Alexandra Lencastre (que nem sei como se chama) e que está num outro canal? É um desespero sem nome.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Ao longo do tempo, fomo-nos habituando ao facto (parece que consumado) de os jornais da noite, ao fim-de-semana, serem pouco mais do que colectânea de fait-divers. Na SIC, então, o “Jornal da Noite” é uma coisa de ir às lágrimas. Não foi à toa, de resto, que ao fim-de-semana foi incluída aquela rubrica de Conceição Lino, o “Nós por Cá”: e porquê apenas ao fim-de-semana, quando aquilo é coisa que dá pano para mangas e para a semana toda? Porque ao sábado, ou domingo, é que faz falta. Presumo que esta escassez de notícias a sério tenha a ver com o facto de o fim-de-semana ser para descansar e, portanto, até os ministros tiram umas folgas à sua actividade (principal?) de nos tornar a vida mais difícil e gravosa. Aos sábados e domingos não vem o primeiro-ministro, geralmente, dizer que vai aumentar isto ou aquilo, nem ninguém do seu gabinete tem a ideia brilhante de tornar mais caro este ou aquele bem de consumo.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4112/4113 de 8 de Abril de 2016

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