Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

[Capa 19-03-2010] Violência nas escolas – a ponta do icebergue!

Arquivo Jornal de Sintra

Foto: Arquivo Jornal de Sintra

Nesta Primavera tardia e invernosa, no meio de uma crise de valores morais, éticos, económicos e financeiros, a notícia do aluno transmontano que se atira ao Tua, para pôr fim à violência de que é alvo por parte dos colegas e o suicídio do professor de Fitares, para terminar com o mau ambiente gerado pelos alunos em torno da sua pessoa e não só, abala profundamente todos os que têm por missão educar, do lat educare, criar, alimentar, ter cuidados com.

A escola de hoje está, cada vez mais, afastada dos conceitos tradicionais tendentes a munir os alunos unicamente de um leque de saberes para o exercício de uma profissão. Todos estamos conscientes de que no horizonte da escola actual, deverá estar ainda presente a trilogia do Saber Fazer, do Saber Estar e do Saber Ser, procurando formar o indivíduo nos seus aspectos intelectual, físico, moral, ético, artístico e religioso, não perdendo de vista a componente familiar e social, com novas realidades multiculturais, que acrescentam valor e complexidade à sua formação.

A investigação, a formação de professores, os estudos comparados, as realidades de intercâmbio com projectos europeus, multiplicam-se, desde os anos noventa e, apesar das palavras do governo nos falarem de sucesso tecnológico, de sucesso educativo, de nova gestão e qualidade das escolas, assiste-se a um pessimismo generalizado tendente a caracterizar as escolas num desfiar de frases como estas: “cada vez os alunos sabem menos”, “cada vez os alunos estão mais indisciplinados” “os professores estão cheios de trabalho…. horas e horas de reuniões, escrita de relatórios, avaliações…..”

O muro de lamentações não tem mais fim… Estende-se das salas de professores, às conversas de rua, aos colóquios do jantar em família. Esquecemo-nos, sistematicamente, de que a escola é o espelho da sociedade que temos, da sociedade que somos e que ajudámos a ser e não damos conta de que ela influencia muito mais a escola do que a escola a influencia… Ora, de uma realidade social febril, cancerosa, com uma economia à beira do colapso, com uma justiça inoperante, com uma corrupção flagrante a todos os níveis, com um défice de autoridade que favorece o desvio à norma, com uma insegurança geradora de medos, só pode resultar uma complexidade perturbadora e desequilibrada que levam ao desânimo, ao laicismo, à desistência. E como se isto não bastasse, acresce ainda a falta de visão de uma política educativa que dê resposta aos desafios no terreno.

A importância ascendente do tecnicismo e do economicismo, fazem submergir valores na esfera da vida, da sensibilidade, do bom senso, da cortesia, da religiosidade, do respeito pelos professores, pelos pais, pelos desfavorecidos, pelo ambiente, pelo património histórico, pelo ser que cada um é integrado num todo. Assiste-se em galope desenfreado à valorização do ter, do lucro fácil, do poder mentiroso, ardiloso e demagogo, da agressividade, da competição desenfreada, do atropelo desmedido, em nome de um qualquer pragmatismo, de um qualquer paradigma, enfim, de um qualquer enunciado sinónimo de índice económico, convergência, melhoria, sucesso num futuro próximo que nunca chega.

Em nome de tudo isto e do muito que fica por dizer, há cada vez mais mentira, mais agressividade, mais violência, mais estradas, comboios e aeroportos, mais desrespeito, mais falta de solidariedade, mais pobreza e… mais vazio, apesar de tudo andar cada vez mais ocupado: o espaço, com mais coisas e as mentes, com mais informação.

Arquivo Jornal de Sintra

Foto: Arquivo Jornal de Sintra

A tudo isto não são indiferentes as crianças de hoje. Aos professores não basta “honesto estudo, com longa experiência misturado”.

O estudo, a missão, os anos de carreira docente e o amar a profissão, de pouco valem face à influência de uma sociedade em putrefacção e à má fé de infindáveis directivas oriundas de ministérios de educação lacaios de um poder político contador de cêntimos para quem vale tudo, excepto o que é honesto, de directivas cujos desígnios são, no mínimo, obscuras…!

Na era da informática, asfixiam tudo e todos com relatórios sem fim e reuniões sem objecto, com o único fim de dividir. Importa é não deixar tempo para reflectir, forçar os professores a calar e consentir, o que, na maioria dos casos acontece, por razões de sobrevivência, por falta de alternativas, se não, quantas vezes, por medo!

O sentimento de impotência cresce na medida exacta do crescente atropelo das normas mais elementares da boa educação e da disciplina, paralelamente com a sistemática e programada destruição do prestígio, da autoridade e até da dignidade da figura do professor.

Falamos do professor, mas podíamos falar do funcionário público, do empregado bancário, do artesão, do técnico de informática, do militar, do engenheiro, do advogado, do lavrador, da dona de casa…e em relação a cada um deles em muito pouco o nosso discurso seria diferente.

É que o mal é mais profundo, é estrutural, é cívico, é moral. O corpo social está doente e só curando cada uma das partes, que é cada um de nós, será possível restituir-lhe a saúde.

O melhor exemplo que me ocorre é o da colmeia, que mesmo sem mestra, mercê da tarefa escrupulosamente cumprida por cada obreira, não só suscita a eclosão de uma nova mestra, como rapidamente se regenera.

M. Anjos Lobato – Professora
Fotos: Arquivo JS

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One Response to “[Capa 19-03-2010] Violência nas escolas – a ponta do icebergue!”

  1. Manuel Azenha diz:

    O artigo enquanto identificação do problema está excelente, quer em termos de caracterização, quer em termos de enquadramento e profundidade. No entanto parece a partir de determinada altura que o problema está no Ministério e que os professores – como aliás qualquer profissional a seguir mencionados – são as vítimas……Desta parte (final) do artigo discordo profundamente!!!!
    O sentimento de impotência (dos professores, dos funcionários públicos….da dona de casa), enfim de todos nós é talvez o resultado de enquanto professores (ou qualquer outra profissão) muitas vezes só vemos a nossa própria profissão, os nossos próprios direitos e pensamos que basta ser professor (ou qualquer outra profissão)e pugnar pelos nossos direitos aguardando que, a partir daí um qualquer Ministério faça o resto que é “construir a Sociedade em que vivemos”….Ora o que nós temos de ser é pessoas, ie, para além de professor necessito de ser cidadão empenhar-me e abraçar causas (neste caso a do ensino e discutir e pugnar por soluções)…Na educação uma das mais tristes situações que vi foi professores a chamarem nomes vergonhosos à sua própria Ministra….Se tivessem razão, a partir daquele momento te-la-iam perdido…Mas, do meu ponto de vista nem razão tinham (ou pelo menos estavam longe de ter toda a razão)
    Penso aliás convictamente que os professores ganharam uma “excelente batalha” mandaram embora uma ministra que percebia muito do assunto, (via-se que conhecia e amava a profissão mas de pouco valeu face à influencia da sociedade – os sindicatos)por outra que fala, fala, mas enfim está a anos de luz da anterior que tinha como grandes defeitos ser muito conhecedora da realidade e persistente…Mas esta tem a “vantagem” de fazer o que os sindicatos exigem!!!
    Esta vitória dos professores (que para mim foi uma vitória de pirro para a educação…) diz bem quanto a mim do estado em que está a educação….e…a nossa Sociedade…que aliás o artigo de uma forma clara identifica, e, “só” por isso é uma peça excelente como comecei por dizer….
    Mas não posso deixar de pensar (e principalmente de acreditar) que por detrás desta Sociedade em putrefação está a nascer uma Sociedade com alguma solidariedade e empenhamento mas para isso vai ser necessário acabar com muitos dos poderes instalados…e, quando me refiro a poderes instalados falo de Governo (claro!) mas tb. Sindicatos, Ordens (eng, Advogados, Médicos etc) Associações (patronais e outras) que pensando apenas nos direitos dos seus associados condicionam a regeneração da colmeia humana em que vivemos.
    Manuel Azenha
    E, por vezes é dificil de idenfificar quem são os “bons” que devem ser incentivados (ie a quem devemos dar o nosso apoio cívico) e os “maus” que devem ser combatidos (ie a quem ….Porque (e isto está no artigo…) parece que os maus são sempre o Governo e os Bons são sempre os outros….Nem sempre é assim e é isso que enqunto cidadãos temos de saber escolher e há poderes instalados dos mais retrógrados que parecem estar ao lado dos mais desfavorecidos….Enfim

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