Semanário Regionalista Independente
Sábado, 17 de Outubro de 2026

Crónica TV

As duas grandes bestas quadradas

JÁ ME COMPLICA com os nervos aquele júri dos “Ídolos”. Bem sei que já falei disto aqui: mas a maneira como os concorrentes têm sido tratados, nomeadamente no último domingo, é de bradar aos céus e era bom que alguém visse aquilo e tomasse providências Não conheço pessoalmente nenhum dos membros do júri – e, em relação a dois deles, nem quero vir a conhecer. É até provável que, no dia-a-dia, Manuel Moura Santos e Boucherie Mendes sejam duas pessoas civilizadas, de bom trato, amigos dos amigos, amantes das respectivas famílias, eu sei lá! A verdade, no entanto, é que ali, naquelas cadeirinhas azuis, perante jovens que acreditam que podem vir a ser alguma coisa na música, eles não são nada disso, pelo contrário: são umas bestas. E como estou a falar de dois membros do júri, isso já faz deles duas bestas quadradas.

CONFESSO-VOS QUE NÃO TENHO qualquer pudor em os tratar assim. É que chamar-lhes o que lhes chamei não é nada comparado com a forma como Manuel Moura Santos, que é presidente do júri e tem um voto que lhe permite o desempate, trata os concorrentes. Parece que foi para ali contrariado: não tivesse aceitado, não é? E Boucherie Mendes, o tal do olhar malandreco para alguma concorrente mais atraente, parece estar a fazer certa gala em seguir as pisadas do presidente, a imitar-lhe os tiques e os remoques. Não me parece aceitável que estando reunidos em palco os últimos 30 e tal (de onde sairão 15) Moura Santos possa chamar quatro ou cinco e dizer-lhes “Vocês estiveram entre os piores de hoje: estão eliminados”. Ou, que a mais um grupinho de outros tantos, se possa dar ao luxo de dizer “Chegaram ao vosso nível máximo de incompetência. Podem sair”. A estes, só lhe faltou mesmo acrescentar “Porque eu sou uma fera”. Para outro concorrente a coisa foi mais esclarecedora (duvidosa, mas esclarecedora): “Tu és a maior desilusão de todos.”

EU ENTENDERIA ESTA divisão se aquele júri, tão competente a mandar fora, tivesse sido capaz de cumprir o que estava programado. Isto é: aquilo que nós vemos em domingos consecutivos, aconteceu na realidade em dias seguidos. Os que passaram a fase dos castings, tiveram, logo a seguir, que se agrupar em trios – e aí, alguns dos elementos que os constituíam, ficaram pelo caminho. Os sobreviventes, os tais 30 e tal, tiveram, para o dia seguinte, de decorar uma canção e interpretá-la, sabendo que dessa fase sairiam os últimos 15. Mas este júri tão competente, tão ágil a dizer mal, tão rápido a denegrir, não foi capaz de chegar a uma conclusão unânime quanto aos 15 finalistas: e deixou pendurados umas duas dúzias de concorrentes por mais três dias – que para os espectadores em casa será mais uma semana.

NÃO SE PERCEBE ISTO: a não ser que, por falta de programação, à SIC lhe tivesse dado jeito ter um programinha extra. Mas mesmo que seja isso, não me parece honesto. Mas há mais. O programa pretende, nas suas próprias palavras, encontrar “o próximo Ídolo de Portugal”. Mas isso quer dizer o quê? Houveconcorrentes que já foram eliminados pela forma como iam vestidos. O que queria o júri? Que os concorrentes se apresentassem com o estilo de Mónica Sinta ou Tony Carreira ou que, como qualquer ídolo que se preze, tenha aparecido da forma que melhor lhe parecia e na qual se sentia mais à vontade? Ainda bem que Moura Santos não é agente de Robbie Williams – ou este não teria ido a lado nenhum, sem o despedir primeiro.

Há 10 anos escrevia
«A “Residencial Tejo” não é, como muito bem quer a proprietária, uma residencial – é uma pensão. Se fosse só isso, estávamos nós bem. Mas é mais ainda: é uma pensão e é mal frequentada. Ninguém o diria, com tanta gente ilustre e conhecida a recheá-la. Mas isto de recheios (e aproveitando a época que nem está longe) é como os perus: só depois de aberto é que se vêem as qualidades do bicho. Este outro recheio de que vos falo, não tinha nem pinhões nem nozes, mas tinha, convém dizê-lo, todos os matadores e requisitos fundamentais: ele era Ana Paula, Canto e Castro, Fernanda Borsatti, Maria do Céu Guerra e, assim como quem junta um toque de pimenta para corrigir o tempero, tinha ainda António Vitorino d’Almeida. A fazer de actor.»

António Pessoa

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