Absolutamente fabuloso
Bernardo de Brito e Cunha
ACONTECEU QUE, a semana passada, no ânimo de defender um camarada jornalista despedido com requintes de cobardia, acabei por não ter espaço para referir o acontecido no programa “A Tua Cara Não me É Estranha 2”, que estreou há dois domingos na TVI. Era o programa de estreia da segunda série desse evento de cantorias, já com novos concorrentes – entre os quais se inclui Luciana Abreu. E depois de ela ter cantado, chega a altura da votação, em que cada um dos quatro jurados diz de sua justiça: e foi exatamente aí que José Carlos Pereira, um dos jurados decide dizer qualquer coisa como: “Luciana, eu sei que há uns anos, num outro programa e num outro canal, foste muito mal tratada por um senhor de que não vale a pena mencionar o nome.” E foi por aí fora. Até que chegou a vez de Luís Jardim, que é o presidente do júri, e que decidiu acrescentar mais alguma coisa ao que José Carlos dissera: “O senhor de que ele falou, convém dizê-lo, não conseguiu ter qualquer influência na carreira da Luciana. Porque ela canta maravilhosamente e ele não sabe nada de música. Ele é apenas um manager de artistas. Felizmente que com a Luciana não se concretizou o que seria uma grande injustiça e ela é, hoje, uma grande artista.” Mais ou menos isto.
ACONTECE QUE NO PROGRAMA de domingo passado, Luciana Abreu, subitamente, disse uma frase que na altura não compreendi: “Quero mandar um grande beijo à minha irmã, que neste momento está a passar um bocado difícil.” Não percebi o que seria o bocado difícil (doença?, pensei logo), e só vim a perceber, por acidente, uns dias depois, quando vi a gravação do programa “Ídolos”. Uma das concorrentes era a irmã de Luciana Abreu: e se ela se deixou condicionar pelo momento e não fez grande figura, a verdade é que não havia de necessidade de Manuel Moura dos Santos chegar àquele ponto. As coisas que ele lhe disse não se dizem a ninguém: e eu só queria ver o Manel a tentar cantar ou a tocar qualquer coisa. Vá lá, sejamos realistas: bastava-me vê-lo a tentar ser um presidente de júri como deve ser. Porque ele há coisas que eu teria pudor de dizer fosse a quem fosse – e ele não.
TODAS AS SEMANAS, nem sei bem a que dia, me maravilho com o programa “Terra” da BBC e com a simplicidade com que David Attenborough explica coisas que são extremamente complicadas. Noto, com alguma tristeza, que ele está muito velho, o que se lhe nota no andar e na fala. Mas mesmo assim, com essas dificuldades, ele lá ciranda o globo à procura disto e daquilo. No último programa, vi-o na Escócia, na Irlanda e na Austrália. Bem sei que aquilo não foi tudo feito de uma vezada, mas mesmo assim: e depois faz um programa escorreito e interessantíssimo, que me faz ficar de olhos colados no televisor durante aqueles 50 e tal minutos. E pasmo como as coisas, para ele, são todas fáceis e nos mostra fósseis de animais com 530 milhões de anos, do período Câmbrico, como se esses 530 milhões de anos tivessem sido na terça-feira passada. E para ele foi: porque dois dias depois (ou uma semana, vá) estava noutro ponto do mundo onde ainda subsiste um animal muito semelhante ao outro e que é o seu descendente natural. Fabuloso.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Fiquei surpreendido, (…) com o programa MasterPlan – O Espectáculo, sobretudo por ter à sua frente um nome como o de Herman José. Fosse ele um outro apresentador qualquer – e não seria por isso que o problema seria menos grave – e a questão seria diferente: mas com Herman a prestar-se a determinadas coisas? (…) O que aconteceu é que, ainda o programa levava poucos segundos, e eu já tinha uma certa sensação de que “estavam a fazer a cama ao Nelson”. Ainda tentei contrapor, de mim para mim, que não era possível, que o Nelson era um tipo popular, simpático, que todas as mensagens de rodapé indicavam que ele seria o vencedor… Mas a simpatia, que é capaz de ajudar, talvez não seja decisiva para as audiências. E, de facto, não foi preciso avançar muito mais no programa para perceber que os dois elementos (aparentemente) introduzidos no público – o pastor evangelista e a jovem de modos exuberantes – estavam ali, como diria a canção, para o tramar.
O primeiro, apesar da sua condição de pastor de uma igreja (seria mesmo?), não teve qualquer problema em dizer que aquela ovelha não era cristã. Mas não dizem as Escrituras que o bom pastor abandonará todo o rebanho só para ir buscar a ovelha que se tresmalhou? É a ideia que tenho. E ele fez isso? Não: pelo contrário, atirou a primeira pedra. Quanto à jovem ruiva (digo eu, que além de má memória, ainda sou daltónico), enveredou por caminhos mais ínvios: os da sexualidade.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3932 de 20 de Abril de 2012

