Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 16th 2019

Haiti: entre o horror e solidariedade

O terramoto que destruiu Port-au-Prince, capital do Haiti, e deixou aquele país pobre e com graves problemas de governabilidade num indescritível caos, foi dos mais violentos de que há memória, sobretudo, segundo dizem os especialistas em sismologia, por ter tido o epicentro muito perto da superfície.

De acordo com os números oficiais, as vítimas mortais terão sido cerca de 200 mil e os feridos à volta dos 250 mil, mas tudo leva a crer que estes números, ou seja os finais, venham a ser muito mais aterradores, tendo em conta a quantidade de desaparecidos e os meios para os localizar e enterrar. No meio da catástrofe, como sempre acontece em situações destas, registam-se verdadeiros milagres, ou seja, situações em que pessoas sobrevivem durante vários dias sem qualquer forma de alimento e com muito pouco oxigénio.

As imagens que nos chegam de Port-au-Prince através da galáxia mediática são de caos e horror. Os sobreviventes andam perdidos no meio dos escombros em busca de familiares, de qualquer tipo de alimento e daquilo que resta dos seus bens, para terem alguma referência que as impeça de resvalarem para a loucura sem retorno. Nem Dante conseguiu descrever o Inferno com tamanho pormenor e tamanha intensidade.

Mas o terramoto no Haiti permite-nos reflectir sobre dois aspectos fundamentais da nossa vivência contemporânea neste mundo global. Um deles tem a ver com a impotência do Homem, mesmo numa sociedade muito desenvolvida tecnologicamente, para conseguir prever ou evitar este tipo de cataclismos, tornados cada vez mais destrutivos e assustadores também devido ao modo como os seres humanos destroem os ecossistemas e os equilíbrios básicos de que a Terra necessita para se manter habitável. Outro aspecto está relacionado com a globalização da própria solidariedade. Em poucas horas, impressionantes meios de dezenas de países foram mobilizados para ajudar as vítimas de Port-au-Prince. Raras vezes a resposta terá sido tão rápida e eficaz. E, nestes momentos, somos tentados a acreditar que o Homem, em situações de calamidade que estão muito acima das diferenças religiosas, políticas ou sociais, é capaz de distinguir o essencial do acessório e de se pôr em movimento para ajudar o seu semelhante. Mas, infelizmente, não tem sido esta a regra.

O ano começou em registo de tragédia para os haitianos e para todos aqueles que acham que nenhum homem é estrangeiro quando a tragédia bate à porta. Entre catástrofes e momentos de redenção solidária, teremos de continuar a viver as nossas vidas, com a esperança de que, à semelhança do que anunciam filmes-catástrofe como o “2012”, baseado na chamada “profecia Maia”, o mundo um dia não acabe desta maneira, por culpa da nossa espécie, sempre predadora, destrutiva, invasiva e violenta.

José Jorge Letria

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