Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 28th 2022

[Capa 22-01-10] Miguel Torga continua a fazer história…

Clara Rocha

Clara Rocha, a ler uma passagem de um livro de Miguel Torga, seu pai

…e a influenciar mentalidades. A Escola Secundária Miguel Torga dedicou o dia 18 ao seu patrono, escritor de referência da literatura portuguesa do século XX, com diversas actividades lúdicas e pedagógicas.

«O Homem só se descobre a descobrir», cita a professora universitária Clara Rocha, o legado vivo que o conhecido escritor português Miguel Torga deixou ao mundo, para além das obras que escreveu e que continuam a deleitar leitores. A conferência da filha do escritor, a par de várias outras actividades na Escola Secundária Miguel Torga, no dia 18 foi, segundo o próprio director, simbólica. “Esta conferência é, para nós, duplamente importante e não havia melhor forma de, por um lado comemorar hoje o Dia do Patrono, mas também iniciar as comemorações dos 25 anos da escola”, sublinhou José Carlos Morais da Cruz.

A conferência centrou-se na obra A Criação do Mundo, um livro autobiográfico que simboliza a forte opinião de Miguel Torga relativamente à religião, contrapondo à visão bíblica a sua visão humanista. “É a sua própria criação do mundo, porque todos nós fazemos a nossa, nós criamos o nosso mundo de várias maneiras”, explicou Clara Rocha. O primeiro capítulo relata uma caminhada de casa para a escola que abre o primeiro dia da criação do mundo. “É uma imagem fundadora da descoberta individual do mundo”, sublinhou a filha do autor, e “toda a continuação do romance será feita de novas descobertas”.

Aspecto da assistência

De S. Martinho de Anta para o resto do mundo

Traduzido em várias línguas, de entre as quais japonês, chinês e hebraico, Adolfo Correia Rocha, que assinava sob o pseudónimo Miguel Torga, “foi considerado, ao longo de várias décadas, como uma espécie de consciência de Portugal”. Nascido em S. Martinho de Anta, uma aldeia transmontana que, como denota a sua obra, é o “centro do seu mundo”, cedo partiu para outras terras sem, no entanto, esquecer as suas origens. ”S. Martinho de Anta não é um lugar onde, é um lugar de onde”, escrevia num dos seus Diários Miguel Torga.

Romance, poesia, teatro, conto e ensaio são as várias formas sob as quais o escritor fez passar a sua mensagem que, entretanto, alcançou uma dimensão mais do que nacional. Apesar de ser um “escritor incómodo” no meio político, como destacou Clara Rocha, hoje é um dos autores de referência e uma das personalidades de destaque no seu tempo. A própria Escola Secundária Miguel Torga é disso um testemunho. “O exemplo dele, a intervenção, a cidadania, a liberdade, os objectivos que ele tinha para a vida dele enquanto cidadão e enquanto colectividade, são também os objectivos da escola”, explicou José Carlos Morais da Cruz. “A preocupação com o futuro, mas sempre numa perspectiva optimista e de incentivo, é a razão do nome desta escola”.

Aspecto da escola

Director da escola e conferencista

Actividades paralelas por toda a escola

Foram várias as actividades que envolveram toda a comunidade escolar, desde jogos tradicionais, promovidos pela disciplina de educação física; um “quiz show”, promovido pelas disciplinas de português, francês e inglês; ateliês de artes plásticas; um “Torga Paper”, promovido por disciplinas de história, matemática, entre outras; partilhas de poemas; conferências com convidados como o ex-líder parlamentar Luís Fazenda, o jornalista Francisco Máximo, e o médico António Henriques; exposições. Até a ementa se enquadrou nas comemorações, com um prato tipicamente transmontano como protagonista.

O dia foi também a ocasião escolhida para homenagear alunos que se destacaram em vários sectores, através da entrega de prémios de valor e excelência.

Exposição

Atelier

Ecos da literatura de Miguel Torga

Várias personalidades conhecidas reconhecem a importância do escritor português e descrevem de diversas formas a sua personalidade e o seu trabalho.

Sophia de Mello Breyner : “Torga é um poeta em quem um país se diz”.

Manuel Alegre: «Miguel Torga pertence a uma linhagem de autores que vem de Sá de Miranda a Camões e até Antero, que souberam ser em diferentes momentos históricos consciências críticas e morais incómodas e nunca acomodadas do seu país. Ninguém foi tão visceralmente e ao mesmo tempo tão lucidamente português”.

José Ornelas (professor nos EUA), sobre A Criação do Mundo: a ausência de nome da personagem principal representa a “possibilidade de lermos no seu destino o de cada um de nós e de lermos o texto como um texto paradigmático da condição e da situação do ser português no século XX”.

ERRATA: Por lapso, o artigo original refere-se à escola como sendo Escola EB 2,3 Miguel Torga. No entanto, esta é uma escola Secundária.Pedimos desculpa pelo erro.


Texto e fotos: Vanessa Sena Sousa

Edição de 15-01-2010

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