Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

Será que nos vamos ver gregos?

A situação que se vive na Grécia constitui um drama europeu e um sério aviso à navegação que, em circunstância alguma, poderá ser ignorado. Não fora a mobilização de meios e vontades dos países mais ricos da União e a Grécia cairia numa situação de banca-rota talvez comparável à da Argentina, há poucos anos, ou da Islândia, mais recentemente.

Nunca se chega a este tipo de desfecho por acaso. Os Gregos deram como certos os factores em que assentou, durante anos, a sua confiança económica e social e gastaram de mais, usaram e abusaram do crédito bancário, ao mesmo tempo que, devido à turbulenta vizinhança com a Turquia, mantinham em alta o orçamento para a Defesa, seguramente o mais elevado dos países da União.

O resultado está à vista. Redução de salários dos funcionários públicos e a economia num caos, com o comércio a falir, a hotelaria e a restauração pelas ruas da amargura e a população num visível e preocupante estado de depressão.

De acordo com o catastrofista diagnóstico do Sr. Almunia, Portugal, pelas suas contas, já deveria estar também a fechar para balanço, sem data previsível para reabrir ao público. Felizmente que houve exagero, alarmismo e falta de rigor nas suas deploráveis declarações e as duas situações não têm graus de gravidade comparáveis. De qualquer modo, o que está a acontecer na Grécia merece uma reflexão urgente, desde logo porque põe em causa a sustentabilidade do projecto europeu em termos de estabilidade financeira. Se outros casos se vierem a verificar, não podem ser os contribuintes dos países mais ricos a pagar a factura daqueles que não tiveram cabeça para se saberem orientar.

Mas, na origem desta preocupante situação, filha da crise que teve origem nos Estados Unidos em finais de 2008, encontra-se a ilusão de que todos estávamos a viver num verdadeiro paraíso de abundância e prosperidade, onde haveria de tudo para todos. Os bancos mentiram, as agências de publicidade ajudaram a empacotar com as cores da embriaguez colectiva esta ilusão de riqueza e facilidade e os governos não tiveram a coragem, por temerem perder votos, de dizer a verdade no momento certo, exactamente por saberem que essa verdade lhes iria causar danos à boca das urnas. O preço da mentira é sempre mais elevado que o da verdade.

Enquanto as grandes economias emergentes, da China ao Brasil, vão dando cartas, a nossa Europa envelhecida, tensa e atormentada pelos mesmos fantasmas que a levaram há décadas a longas ditaduras, tenta assobiar para o ar, consciente da sua irrelevância política e militar, apenas disfarçada pelo seu peso económico no concerto das nações.

Devem, por estes dias, os gregos clássicos andar a dar voltas nos túmulos, por verem a sua pátria com a cabeça à razão de juros. Nós, por cá, vamos fazendo contas e também nos vamos vendo gregos para sabermos como havemos de superar o aperto da crise. E o mais grave é que, por mais que nos tentem fazer crer o contrário, olhamos em redor e não encontramos uma alternativa credível e sustentável, sobretudo quando aparecem candidatos da oposição com frenesim argumentativo que quase nos fazem sentir o desejo de sermos gregos caso um dia eles se tornem poder.

José Jorge Letria

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