Semanário Regionalista Independente
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[Capa 28-05-2010] Unidos pelo Espírito Santo

Uma Mostra das Festas do Espírito Santo realizou-se no dia 22, promovida, à semelhança da organização das próprias festas, pela vontade cívica de não deixar morrer esta tradição. A Casa dos Penedos, perto da Vila, foi o local que acolheu representantes de entidades e locais de Sintra, como Filipe Costa, do Penedo (Colares) e José Andrade, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Ponta Delgada, nos Açores.

As festas em honra do Divino Espírito Santo terão sido criadas na Idade Média, de acordo com vários cronistas, em Alenquer, por Isabel de Aragão e D. Dinis. Sabe-se que a festividade teve começo através do papa Urbano IV, que instituiu uma bula em 1264. Hoje em dia, estas celebrações de cunho popular e religioso têm como imagem de marca as nove ilhas dos Açores, em especial Ponta Delgada, onde estão enraizadas na cultura tradicional. Em Sintra, no Penedo, na freguesia de Colares, realizavam-se regularmente festas em honra do Espírito Santo – citando Maria Micaela Soares, estudiosa da matéria, “O Penedo é o único lugar do rectângulo continental que sabe ainda festejar o Divino com a dignidade de outrora e se esforça por cumprir os passados rituais”. E este ano, de 9 a 13 de Junho, as celebrações estão de volta à “aldeia do Espírito Santo”, o Penedo, depois de 10 anos de ausência.

Esta iniciativa, que como habitual, aqui e nos Açores, é inicialmente impulsionada pela população, não podia passar despercebida, pelo que foi promovida, através de um esforço conjunto entre a SintraPenaferrim – Associação Cultural e Cívica, a Alagamares – Associação Cultural e o próprio Jornal de Sintra, a Mostra das Festas do Espírito Santo – uma colectânea de fotografias da autoria do fotógrafo açoriano Pedro Monteiro, e duas palestras, cujos oradores foram Filipe Costa, do Penedo, e José Andrade, vereador da Cultura de Ponta Delgada, nos Açores, o qual se deslocou de propósito para o evento, onde foi convidado de honra. Este encontro entre pessoas interessadas pela temática, a Mostra das Festas do Espírito Santo, decorreu na Casa dos Penedos, escolhida pela simbologia do seu nome e pela sua localização privilegiada, com vista para o Palácio da Vila e com vários elementos decorativos que se enquadram no ambiente que se vive nas próprias Festas do Divino Espírito Santo.

José Andrade, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Ponta Delgada, deslocou-se de propósito até Sintra para participar na mostra

“A aldeia do Espírito Santo”

De acordo com Filipe Costa, as festas em honra ao Espírito Santo no Penedo “remontam a tempos imemoriais” – não existe documentação sobre a instituição das festividades, mas sabe-se que estas se realizavam pelo menos a partir do século XVII. No entanto, apesar disso, “a vontade popular, persistente e convicta das suas tradições” perdura, pelo que muitas práticas tradicionais se mantêm desde os primeiros registos históricos das festas, as quais conferiram ao Penedo o nome de “aldeia do Espírito Santo”.

Hoje, as celebrações têm um cariz tão religioso quanto cultural, fruto de uma intenção que data de cerca de 1985, altura em que se realizou uma modesta mostra sobre as festas, apresentada na sede da Sociedade Recreativa local, a Tuna Euterpe União Penedense, fundada em 1925, e em colaboração com elementos da Capela do Penedo.

Contudo, em 1999 as festas não se realizavam há 12 anos. Foi nessa altura que se divulgaram algumas mostras documentais que recuperaram memórias de uns e despertaram a atenção de outros, quer residentes quer forasteiros. Agora, depois de 10 anos de ausência, as festas voltam ao Penedo, mas adquirem uma visibilidade “nacional” – citando um artigo do Correio dos Açores, noticiando a vinda do vereador José Andrade a Sintra, no passado sábado, dia 22. Essa visibilidade torna-se agora nacional porque cria laços entre nove ilhas de Portugal, o arquipélago açoriano, e um dos maiores concelhos do país, Sintra*.

A mesa da palestra foi constituída pelo vereador da Cultura de Ponta Delgada, José Andrade e por Filipe Costa, em representação da Comissão de
Festas do Penedo, Rosário Miranda, representante da Câmara Municipal de Sintra e Idalina Grácio, directora do Jornal de Sintra

Penedo e Ponta Delgada

Unidos pelo Espírito Santo

“Há aqui uma semelhança paisagística que nos distingue e valoriza, quer a S. Miguel, quer a Sintra, do conjunto nacional do nosso país”, contou ao JS José Andrade, destacando que “o verde que Sintra tem faz lembrar um pouco os Açores”. Maior semelhança ainda é o culto ao Espírito Santo, algo que o vereador da Cultura de Ponta Delgada considera curioso. É que o culto terá sido levado para os Açores pelos primeiros povoadores, há cerca de cinco séculos, e é “nas suas 150 freguesias que ainda hoje se preserva, como em nenhum outro espaço do mundo, o culto ao Divino Espírito Santo”. Nesse sentido, o vereador mostra-se surpreso por esta tradição ser também concretizada em Sintra. “Não tínhamos a ideia de que o culto pudesse ainda ter resistido desta forma, que Sintra parece mostrar, no continente português. E portanto o grande mérito desta iniciativa, além da oportunidade de dar a conhecer a nível nacional as festas do Espírito Santo de Ponta Delgada, é nós próprios conhecermos um pouco as cumplicidades porventura existentes entre o Espírito Santo de Sintra e o dos Açores”, explica ao JS.

O vereador vai mais longe e fala mesmo na possibilidade de uma parceria entre estes dois pontos do país. “Quem sabe se daqui não nascerá uma cooperação futura, um intercâmbio, um pretexto para desenvolvermos de parte a parte melhor o relacionamento entre Ponta Delgada e Sintra no âmbito das festas do Espírito Santo?”, indaga.

Detalhes simbólicos das festas do Divino Espírito Santo tanto dos Açores como de Sintra, na Casa dos Penedos,
perto da Vila Velha, em Sintra

Costumes que ficaram na memória

A dimensão dos festejos é diferente. Sublinha José Andrade que só em Ponta Delgada, um concelho com 24 freguesias, realizam-se mais de 100 festas em honra do Espírito Santo, de Maio a Julho. A primeira de que há memória terá sido feita em 1666, quando D. Manuel da Câmara fez uma promessa ao Espírito Santo para este lhe conceder a graça de ter um filho varão; quando o pedido se concretizou, deu uma grande festa em honra do Espírito Santo. A partir daí e até à actualidade mantiveram-se as tradições de honrar o Divino com estas festas. São muitos os detalhes simbólicos, alguns diferentes, outros iguais, entre as celebrações que se realizam aqui e as que se realizam nos Açores. Um dos pontos mais importantes é a partilha com os mais desfavorecidos, as procissões, a coroação do imperador – vertente pagã que data da época medieval, também chamado de mordomo, o espírito que se gera através do trabalho, em equipa, e depois, aquando dos festejos, do usufruto de tudo o que foi feito.

No Penedo, a população reúne-se e reparte as tarefas. Cortam-se varas de acácia e eucalipto, apanha-se giesta e buxo, cortam-se folhas de palmeira. É com esses elementos que se vai engalanando o recinto das festas. As quermesses são feitas, refeições para os dias de festa são preparadas – um dos ex-líbris gastronómicos é a carne do touro que é, ou era, corrido à corda, e depois morto; a sua carne é distribuída aos pobres, o chamado bodo, e servida também durante as festas, especialmente sob a forma de guisado ou de iscas.

Em visita ao JS, conta Jaime Nunes Soares, morador do Penedo, que a primeira memória que tem das festas é a de ser imperador em 1942. Em jeito nostálgico, conta que agora as crianças “não sabem o que são estas festas”, mas que as pessoas estão todas entusiasmadas. “À tarde quando largam do trabalho vão lá ajudar um bocado”, conta o penedense.

Agora um dos objectivos é garantir que a tradição, que Jaime Soares considera “muito bonita”, não se perca. É nesse sentido que todos têm trabalhado para que o regresso das festas se torne memorável. “Até há um vizinho meu, com 90 anos, que deve estar lá agora a desfolhar linho”, conta o penedense, recordando que dois dos elementos que tornam as festas do Espírito Santo únicas são os cordões de buxo, que eram estendidos pelas ruas, e a largada do touro, em que toda a gente pode participar.

Jaime Soares fala também “da matança do boi no Largo do Chafariz”, que agora passou a ser feita num matadouro privado, das bandas que tocavam, da missa com a coroação do imperador e de vários outros aspectos das festas. Sempre com boas expectativas quanto às que se vão realizar este ano, dez anos depois das últimas, e com o brilho da saudade no olhar.

Fotos de arquivo: Foto de 1999, com o touro à corda; Milhares de pessoas passaram pelas festas em 1999; Último imperador, Diogo Castro em 2000

Jornal de Sintra acompanhou as Festas do Penedo

As duas últimas celebrações decorreram em dois anos consecutivos, 1999 e 2000, depois de um interregno de 12 anos. O centro das atenções foi a polémica da matança do touro – que também foi tema de conversa no fim das palestras da Mostra das Festas do Espírito Santo –, polémica essa que em 1999 chamou ao Penedo associações de protecção dos animais e aqueceu os ânimos. Em 2000 chamaram a atenção os vários agentes policiais, cujo número não chegou a ser esclarecido devido a discordâncias entre as informações oficiais e aquilo que os penedenses presenciaram.

A verdade é que de um ano para o outro a cobertura noticiosa que as festas tiveram, mesmo tendo sido originadas pela polémica, foram uma forma de publicitar o evento que acabou por se realizar em 2000. A anterior paragem parece ter sido originada pelo cansaço dos habituais organizadores das comemorações, como noticia a edição de 16 de Junho do JS desse ano, e também devido a uma queixa apresentada à Sociedade Protectora dos Animais. A partir de 2000 e volvidos dez anos, nova paragem se concretizou, para voltarem agora as festas do Penedo, de 9 a 13 de Junho, com mais apoio por parte das associações de sintrenses que organizaram a Mostra das Festas do Espírito Santo e com uma ligação, ainda que por enquanto remota, a um dos locais onde esta terceira entidade da Santíssima Trindade tem um destaque especial, os Açores.

*Os laços vão ainda mais longe, com a participação de personalidades que se dedicaram ao estudo do Espírito Santo e das celebrações em sua honra, entre outros aspectos que tornam esta temática abrangente. Essa participação será concretizada através da publicação de uma grande reportagem, escrita a várias mãos, a sair na edição de 4 de Junho, daqui a uma semana.

Texto: Vanessa Sena Sousa
js.vanessasenasousa@mail.telepac.pt
Fotos: Vanessa Sena Sousa / Arquivo

Penedo – Sintra • Ponta Delgada – Açores:

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