Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Fevereiro 17th 2026

Tapada das Mercês mostra (i)novação e multiculturalidade

As culturas que integram a comunidade da Tapada das Mercês encontraram-se para o Tapada em Festa – I Encontro Cultural 2010, organizado pelo grupo (I)Nova Tapada, nos dias 10, 11 e 12 de Junho, por ocasião da comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Cerca de 4 mil pessoas participaram nesta festa que veio mostrar que esta urbanização, que congrega 23 nacionalidades, não está “adormecida” e precisa de mais iniciativas assim.

“Ainda não tinha passado o primeiro dia e as pessoas já estavam a insistir que tem que haver mais vezes e que não devia ser só para o ano”, conta Alexandra Santos, do K’Cidade, uma das organizações que integra o (I)nova Tapada, o grupo promotor do I Encontro Cultural – Tapada em Festa.

De facto, a adesão das pessoas a esta iniciativa ficou marcada nas diversas actividades que preencheram os três dias do evento – 10, 11 e 12 de Junho – e o espaço interior e exterior do centro comercial Floresta Center, perto da estação de comboios e num local de grande movimento urbano, encheu-se de cor, movimento e música. Contas feitas, foram cerca de 4 mil as pessoas que passaram pela “festa”, o que superou as expectativas da organização e incentiva a outro evento do género em 2011.

Apesar de a organização ter sido levada a cabo por uma parceria entre associações, foram os próprios moradores da Tapada das Mercês que apontaram para a necessidade de actividades culturais e de ocupação de tempos livres, num inquérito realizado em Dezembro de 2009. Às associações que integram o (I)Nova Tapada juntaram-se grupos informais e outros voluntários que organizaram para estes três dias mais de 40 actividades e montaram vários stands no largo onde tudo se passou. Além disso, também diversos comerciantes locais aderiram à iniciativa oferecendo à população descontos e promoções.

Colmatar necessidades e diminuir o consumismo

O Ponto de Troca, criado pela Associação de Pais da EB1/JI – Bandeirinhas, foi um dos stands que esteve no I Encontro Cultural. O conceito desta iniciativa vai contra os princípios da sociedade consumista, promovendo a troca por troca, sem a utilização de dinheiro. Uma das responsáveis, Amina Sulemane, contou ao JS como começou o projecto: “Nós estamos inseridos numa escola em que vemos pessoas com bastantes dificuldades financeiras e isso nota-se pela aparência das crianças”, daí que tenha surgido a ideia de ajudar e ao mesmo tempo “reduzir o consumismo exacerbado que existe hoje em dia e também optimizar e fazer com que os artigos tenham uma durabilidade maior”.

Como funciona o Ponto de Troca? As pessoas entregam artigos (roupa, brinquedos, jogos, etc.) e em troca recebem créditos que poderão trocar por outros artigos. Quem faz voluntariado no projecto, que funciona no ATL das Bandeirinhas e no Mercado da Tapada, recebe também como pagamento créditos.

Ao longo dos três dias, o Ponto de Troca angariou 60 novos clientes e todos os produtos foram escoados. De acordo com a organização, um dos objectivos é que o projecto chegue ao maior número de pessoas da Tapada das Mercês e não só.

De mulher para mulher

Tudo começou quando Elisabete Borges participava num grupo do K’Cidade. Daí surgiu a ideia do Clube das Mulheres. “Como mulher e como mãe achei que devia haver um grupo de mulheres, onde se pudesse partilhar ideias e fazer actividades”, adiantou ao JS. Agora são sete as voluntárias, que mobilizam outras mulheres e organizam reuniões de 15 em 15dias. No entanto, conta Elisabete, não têm aderido tantas pessoas quanto gostaria, “porque as mulheres não têm muito tempo livre”. Além disso, a fundadora considera que “a mulher não é valorizada, aqui na Tapada, não se sente valorizada e tem medo de expor as suas ideias”.

Assim, esta promotora do interesse da mulher revela ao JS a sua própria experiência: “sofro de uma depressão há oito anos e têm-me feito muito bem estas actividades”. Depois de ter formação em algumas áreas, como a informática, Elisabete começou a fazer contactos, publicidade e outras tarefas de divulgação. Entretanto, esta mulher, que não se considera uma líder porque “todas as mulheres podem ser líderes”, está agora a tirar o 12.º ano, explicando que tenta ser um exemplo para outras mulheres. Agora o grupo tenta também chegar aos jovens, estando a organizar várias actividades para o verão, e criou um grupo de teatro, que actuou nos três dias do evento na Tapada das Mercês.

Associação Islâmica da Tapada das Mercês e Mem Martins

Um dos representantes desta associação, Caramó Sissé, disse ao JS que a iniciativa superou as expectativas e que pessoas de outras freguesias, como Rio de Mouro e Cacém, mostraram-se interessadas no seu projecto de integração de pessoas de cultura islâmica, projecto esse que começou oficialmente em 2008 com o apoio do K’Cidade. Agora, a associação prossegue quase independentemente, com muitas actividades como informática e aulas de alfabetização. “O apoio escolar para crianças é uma das actividades mais importantes que nós tempos”, explica Caramó, uma vez que “um dos objectivos principais é ajudar as crianças, integrá-las na sociedade para que não percam as raízes, a cultura islâmica e a cultura africana”, mas também fazê-las sentir-se parte integrante da sociedade em que se inserem.

Outras das actividades relacionam-se com o ensino da língua portuguesa a pessoas que não fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, como é o caso de mulheres do Senegal e da Gâmbia, e também com apoio social.

“Acordar o Dormitório”

Um dos lemas da Associação Juvenil Dínamo, sedeada em Rio de Mouro e integrante do (I)Nova Tapada, parece encaixar-se neste I Encontro Cultural. “Acordar o Dormitório” é apenas um resumo do que a associação pretende, sendo que dormitório tem diferentes significados e conotações. No entanto, de acordo com o presidente da direcção, Sérgio Xavier, “esta é uma das medidas e uma das ferramentas que pode ser utilizada para acordar o dormitório, porque é uma ferramenta que estimula a participação activa das pessoas, as relações de vizinhança e é uma iniciativa que envolve a comunidade”.

Além disso, o Tapada em Festa “é também uma iniciativa que estimula o contacto e o diálogo com quem faz e define políticas, neste caso de acção social, mas que tem ligações com tudo o resto”, explica ao JS. “A Dínamo abraçou este projecto porque em primeiro lugar é um dos raros projectos estruturados que existem dentro do concelho de Sintra” e é também “um projecto de desenvolvimento comunitário, que é outra coisa rara no concelho”, projecto esse num “território riquíssimo”, acrescentou Sérgio Xavier.

Alexandra Santos, do K’Cidade, outra das associações do (I)Nova Tapada, contava ao JS, no segundo dia de “festa” que o evento já tinha cumprido grande parte dos objectivos a que se haviam proposto as organizações que o promoveram. “Desde a mobilização das pessoas, à partilha das culturas, à mostra de todos os talentos e competências que há na Tapada e à volta da Tapada, que estão ‘adormecidos’”, explicou. O que era preciso, segundo Alexandra Santos, era que se desse o “pontapé de saída”. E agora, o que é preciso “é não deixar adormecer outra vez”.

Outros participantes: Conservatório de Música de Sintra; ATL do Centro Comunitário da Paróquia de Algueirão-Mem Martins; EB1/ JI da Tapada das Mercês; Turismo da Guiné – Conakry; Bombos das Mercês; Oficina de Teatro e Expressões; Escola Visconde Juromenha; Rubydance; TDM; Grupo de dança senegalesa; Sadjo Djaló; Turma Ke Nossa; Os Primos, Os Ngappas; Rapepas Dji’s; Erom; Maio Coopé; Berdianas Ku Atitude. Outros artistas: Jaqueline Carvalho, Maria Augusta, Timóteo e Músicos, Sérgio Tréfaut, Tiago Figueiredo, Francisco Pimenta e Joaquim Roque.

Texto e fotos: Vanessa Sena Sousa
Reportagem publicada na edição de 18 de Junho de 2010

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One Response to “Tapada das Mercês mostra (i)novação e multiculturalidade”

  1. Marco diz:

    Muitíssimo obrigado. Gostei muito desta reportagem!
    (O meu filho não consta em nenhuma das fotografias)

    Cumprimentos,
    Marco

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