A única máscara de Catarina
Bernardo de Brito e Cunha
REGRESSOU MAIS uma série de programas que dão pelo título de “Príncipes do Nada”, mais uma vez apresentado por Catarina Furtado. Eu compreendo que é um programa simpático pelos temas que aborda, e também será simpatiquíssimo para uma equipa de televisão, visto que a leva a lugares do mundo onde não é muito vulgar irmos. Nesta terceira série de 13 programas serão retratadas as dificuldades que se vivem nalguns países em desenvolvimento, para além dos Palop’s que já foram abordados nas séries anteriores. Pretende mostrar-se realidades muito diferentes mas que têm em comum a pobreza extrema e o facto de lá se encontrarem ONG’s e voluntários que diariamente fazem um combate sério contra as gritantes desigualdades sociais. Desde o Haiti ao Sudão, passando por Moçambique, por exemplo, quer, mais uma vez, fazer-se um balanço sobre as metas referentes aos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, reforçando a sua importância e os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos em erradicar a pobreza extrema e a fome até 2015.
ATRAVÉS DE HISTÓRIAS pessoais que são obviamente comoventes aborda-se a mortalidade infantil, a saúde materna, a educação, a Sida, a desigualdade de género ou a sustentabilidade ambiental, entre muitas outras questões que estão na ordem do dia dos países mais pobres. “Príncipes do Nada” pretende informar, denunciar e tornar cúmplices os espectadores dando-lhes a possibilidade de intervirem numa tentativa de tornar este mundo mais justo, não apenas através da sensibilização mas também da oportunidade que é dada a cada uma das ONG’s (passando os seus contactos) para que consigam obter mais donativos.
Na estreia da terceira série de “Príncipes do Nada”, que aconteceu na noite de segunda-feira passada, “viajámos” até ao Sudão do Sul, o mais jovem país do mundo, cuja independência foi declarada a 9 de Julho de 2011. A cruel realidade das meninas sudanesas do sul, que sofrem abusos sexuais ou são obrigadas a prostituir-se foi-nos revelada pela organização não-governamental Confident Children Out of Conflict (CCC). Nesse episódio, Catarina Furtado entrevistou mesmo algumas dessas meninas de rua que, ainda crianças, estão habituadas a achar que não têm direitos e que não podem gostar nunca de si próprias, e acompanhou o trabalho que a ONG faz no terreno, tirando as meninas destes ambientes e permitindo que possam ir à escola, com o objetivo de que, um dia, também elas venham a ajudar o seu país a desenvolver-se.
COMO SE PERCEBE, tudo isto se reveste de um interesse muito grande e será, quem sabe, um auxílio precioso que é prestado a essas populações. Mas, tirando esse lado humanitário, o programa já deixou de me interessar – e explico porquê. É que Catarina Furtado, seja na Cochinchina, seja no Sudão ou em São Tomé, onde julgo que já a vi num dos primeiros episódios, é sempre igualzinha. A si mesmo, talvez, mas não deixa de ser igualzinha. Tem a pequena diferença de nuns países falar em português e noutros, noblesse oblige, em inglês. Mas igualzinha, sempre, nas expressões e na forma como fala com adultos e crianças. E há de haver diferenças entre uns e outros, de país para país. Porque nós somos todos iguais – mas profundamente diferentes. E às vezes, quando o programa passava, eu olhava e ficava com a ideia de que já o tinha visto: e, muito sinceramente (e por mais abnegado que o trabalho seja), isto não me parece nada bom sinal. Porque se me afugenta a mim, que ainda tenho a “obrigação” de ver televisão, o que se poderá dizer de quem tem a possibilidade de, com um clique, mudar de canal?
PARECE-ME LONGE do fim, esta questão da medição das audiências, que começa já a ter foros de anedota. O último capítulo desta pescadinha de rabo na boca foi o facto de, no passado domingo, dia em que há cerca de nove milhões de pessoas a ver televisão, terem “desaparecido” qualquer coisa como um milhão e meio. Ora milhão e meio de pessoas não é coisa que se perca assim com essa facilidade. Ou será?
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Não posso concordar com alguns que consideram que Júlia Pinheiro faz programas demasiado estridentes. A verdade é que esse é, em parte, o seu estilo. E, por outro, Júlia Pinheiro tem, por assim dizer, nos tempos que correm, dois estilos. Um, calmo e pausado; o outro um pouco mais extrovertido. Não se pense, com estas palavras, que adoro os gritos e as gargalhadas de Júlia Pinheiro: não gosto muito. De resto, essas características foram o suficiente para me afastar dos programas que fazia, numa fase da sua vida profissional. No entanto, parece-me que Júlia Pinheiro, passados alguns anos, encontrou um maior equilíbrio – e agora temos uma Júlia Pinheiro perfeitamente “normal” em “O Jogo da Espera” e uma outra, mais activa, mais interveniente, em “Gregos e Troianos”. Este último, em exibição às quintas-feiras na RTP 1, em directo, tem tido a capacidade de pôr em presença grupos de opiniões diferentes acerca de um determinado tema, seja ele mais poder às polícias ou não, se maltratamos (ou não) os animais, se o sexo não deve ter limites.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3929 de 30 de Março de 2012

