Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Setembro 26th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

A coragem já não é o que era…

Bernardo de Brito e Cunha

SUSPEITO que a maior parte de nós terá o seu clube. Este, aquele ou o outro, tanto faz. Muitos de nós, inclusivamente, manifestamo-lo publicamente: com publicamente não pretendo dizer que vão aos estádios gritar, mas que, nas suas funções televisivas, não se esquivam a dizer – como é o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, que todos sabemos ser do Braga, ou o seu companheiro de conversa, aos domingos, Júlio Magalhães, que ninguém ignora ser do FC do Porto – quais as suas preferências clubistas. E sendo assim, também ninguém poderia ignorar que João Gobern, quando foi convidado para o programa “Zona Mista” da RTP Informação, era (e é) do Benfica. A verdade é que, sabe-o quem acompanhou o programa, nunca tal foi visível no programa. Pelo contrário: se havia que bater no clube da Luz ou nos seus dirigentes, a “bofetada” mais forte vinha sempre do seu lado. Que ele tem físico para isso, diga-se em abono da verdade.

ORA QUE ACONTECEU quando no programa se comentava o jogo Benfica-Braga? Já no prolongamento, como se sabe, o Benfica marcou o seu segundo golo, que seria o da vitória. Que faz Gobern, como o faria outro comentador qualquer, que isto de paixão de futebol não é coisa de meter para dentro? Manifesta-se, como se vê na imagem. E começam a chover protestos e mails e telefonemas. E João Gobern, ao ver que a coisa estava a tomar uma proporção inesperada, faz uma coisa que, a princípio, me pareceu disparate: telefonou a Nuno Santos, diretor de Informação da RTP, e pôs o lugar à disposição. A resposta, prometida para o dia seguinte, chegou dois dias depois, com a resposta inesperada: que não estavam reunidas as condições para que Gobern continuasse no programa.

NUNO SANTOS, PROVAVELMENTE, terá pensado que o gesto de Gobern minara de forma irreversível a confiança que o público da RTP tinha no canal público. Não me parece, a ter acontecido assim, que seja Gobern o responsável: a confiança na RTP é minada, diariamente, sempre que o canal público não assume as suas obrigações e deveres. Nuno Santos teria razão em dispensar João Gobern se pudesse dizer “Aquele João Gobern tem de ir à vida porque só diz disparates e de futebol percebe zero!”. Mas nem tem essa defesa. Nuno Santos, de resto, não tem defesa nenhuma – a não ser a da cobardia. Se é que isso chega a ser desculpa e motivo.

LAMENTO MUITO, mas parece-me pouco plausível ter um ministro das finanças que é tão ex-pli-ca-di-nho nas palavras e que, no entanto, comete lapsos quando fala em público. E não é apenas ele: o primeiro-ministro, quando fez o anúncio dos cortes de subsídios de Natal e de férias, na Assembleia, referiu-se especificamente a 2012 e 2013. Não foi o único: também Miguel Relvas, ministro dos Assuntos Parlamentares e a secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís Albuquerque, disseram a mesmíssima coisa. O ministro das Finanças admitiu na quinta-feira da outra semana, ao fim de várias questões da oposição, “um lapso” ao ter dito em entrevista à RTP que a suspensão dos subsídios de férias e Natal terminaria com o programa de apoio, que acabaria em 2013. Como muitos saberão sou reformado e este lapso de Gaspar vai dar cabo de mim – a começar pelas finanças. Num silogismo pouco elaborado, o ministro, primeiro-ministro e restante família parlamentar vão dar cabo do meu orçamento. E do de mais um par de milhões de portugueses.

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«Lembremo-nos do que se passou com o “Big Brother”, ou com as suas três edições: à medida que íamos avançando no tempo, os concorrentes eram melhores, culturalmente, do que os anteriores. Mas as audiências variavam na razão inversa, isto é, quanto mais evoluídos eram os grupos de concorrentes, menor era o impacto que provocavam no público e, consequentemente, menores eram as audiências. Nenhuma televisão estava interessada nisso, de onde dar o mais “rasca”, pelo menos que é aquilo que nos entra pela casa dentro, poderá dar resultados bem mais simpáticos. Resultados esses que não se fizeram esperar, em diversas ocasiões, nomeadamente quando Gisela decidiu, numa cena combinada, armar-se em virgem. Com tanta gente à sua volta, era difícil que alguma coisa acontecesse, a não ser que a rapariga estivesse de cabeça completamente perdida. Mas não era o caso, e tudo se resolveu com meia dúzia de chineladas no vão da escada, das quais a principal vítima foi o próprio namorado.»

(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3931 de 13 de Abril de 2012

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.