Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Junho 10th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Ora, ora: então já chegámos à Europa?

Bernardo de Brito e Cunha

E LÁ ACONTECEU mais um Festival da Eurovisão, mesmo (e sublinho o mesmo) sem a nossa participação que, na minha opinião, em muito teria contribuído para elevar o nível do certame. E não há aqui qualquer ponta de blague da minha parte, o que passarei a explicar. Como toda a gente teve oportunidade de ver, até nas eliminatórias, o festival tornou-se, com o passar dos anos, numa coisa cada vez mais sofisticada, com mais recursos, com mais luzes, com mais efeitos e com palcos cada vez mais aparatosos e vastos. Quanto às canções… bom, aí a coisa já é diferente, dado que me parece que a sua qualidade tem vindo a decrescer no sentido inversamente proporcional ao tamanho do palco. Não creio que haja um cidadão europeu, no sentido alargado que este festival encerra que, no dia em que escrevo, seja capaz de se lembrar de um estribilho, uma estância (ficou lindo ou não?), um refrão que seja de uma daquelas 42 canções – ou lá quantas elas eram. E isto, para um festival de canções, parece-me grave.

MAS HÁ UMA COISA que me parece mal, neste festival da Eurovisão. Se é verdade que aquilo é um concurso entre os representantes dos países que compõem a Eurovisão e se, por outro lado, aquilo que principalmente caracteriza cada um desses povos é a língua que falam, não me parece que faça muito sentido que, por exemplo, os finlandeses, ou os gregos, ou os islandeses – que falam, no seu dia-a-dia, aquelas magníficas e respetivas línguas-de-trapos – nos apareçam, ali, cantando alegremente em inglês como se tivessem todos nascido nas ilhas. Britânicas, claro. É certo que houve países que se mantiveram fiéis a este princípio (como teria sido o nosso caso), mesmo que isso lhes tivesse custado alguns pontos e, consequentemente, alguns degraus na tabela final – tabela essa de que também nenhum cidadão europeu se lembrará com grande clareza, excluindo a posição ocupada pela Suécia, que ganhou… cantando em inglês.

DAÍ QUE, a meu ver, havia alguma coisa a fazer às regras da Eurovisão. Nomeadamente neste aspeto da língua. Devia haver um funcionário da Eurovisão que perguntasse aos concorrentes: “Os meus amigos, que vêm da Estónia, vão cantar em que língua?” Ao que, obtendo por exemplo a resposta “Em inglês”, os faria pegar nas malinhas e voltar para de onde tinham vindo. Pois então agora querem-nos a todos franceses ou ingleses? Era o que faltava!

ASSISTI À ESTREIA do novo concurso da RTP, “Decisão Final”. É uma coisa básica: cinco concorrentes tentam responder corretamente a diversas perguntas de cultura geral, com predomínio de temas nacionais, de forma a evitar o pior…uma queda no alçapão que se encontra debaixo de cada um. E depois está-se mesmo a ver: quando um dos concorrentes falha uma resposta é obrigado a puxar uma alavanca que faz rodar o mecanismo de abertura dos alçapões. Estará a sorte do seu lado ou irá cair no buraco?
Depois de quatro eliminatórias, o concorrente finalista tem ainda que ultrapassar o último desfio: responder corretamente a dez perguntas em apenas 60 segundos e decidir se puxa a alavanca por uma última vez. Em resumo, é um concurso de cacaracá. Mas uma outra coisa sobressaiu daquele primeiro programa: é que ele foi certamente escolhido (se não mesmo pensado) por José Carlos Malato, que se divertiu muito mais no programa de estreia do que qualquer dos concorrentes. E se é verdade que uma pessoa que escorrega e cai (na calçada ou no alçapão) começa por nos provocar a gargalhada e só depois o braço que a ajudará a reerguer-se, José Carlos Malato ri de quem cai neste concurso para além do bom gosto e do aconselhável para um apresentador de televisão. E estamos conversados.

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«Mas, como é hábito, estamos para aqui a discutir miudezas (…) que são coisa nenhuma quando comparado com os problemas que se estão a colocar à RTP. Nada de novo. A não ser no tom com que o ministro Nuno Morais Sarmento e as bancadas do governo se atiram à estação pública, embora sempre dizendo que a querem salvar, e aos atropelos que vão fazendo do Regimento. A sessão de uma das tardes da última semana deu mostras bem significativas daquilo que podemos esperar do governo. Quando o executivo está no poder há 40 e tal dias e já é chamado de “mentiroso”, fresca vai a coisa…»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3938 de 1 de Junho de 2012

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