Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

O país profundo e o longínquo

Bernardo de Brito e Cunha

REALMENTE NÃO HÁ como contatar com as coisas. Aconteceu-me ter passado uma semana no Alentejo e, de repente, a ficar automaticamente abrangido pela Televisão Digital Terrestre. E foi então que tomei verdadeiramente consciência de como esta transformação da TDT foi mal feita. Já aqui referi o número de canais que outros países europeus, ao adotarem o sistema, implementaram: e não foi mais um ou outro canal – eram às dezenas. Pois no Alentejo lá me vi confrontado com os míseros quatro canais generalistas. É certo que para os habitantes da zona a diferença foi nenhuma, pois já eram esses os canais que recebiam antes de instalarem o aparelhinho: mas a mim fez-me confusão não poder ir a um canal (só existente no cabo) de notícias ou de séries e filmes. Mas também compreendi outras coisas.

COMPREENDI, POR EXEMPLO, as gentes daqueles concelhos um pouco mais remotos e que a PT, convenientemente, se “esqueceu” de cobrir. E desses, aqueles que foram as respectivas câmaras ou juntas a arcar com as despesas, para que as populações não ficassem sem aqueles quatro canais que lhes trazem o mundo para mais perto de si. Sem esquecer o pormenor de que todos esses afetados pagam, mesmo que não queiram, a taxa de televisão na continha da electricidade… Mas a coisa foi ainda mais grave para outros. Por exemplo, para um grupo de habitantes das ilhas das Flores e do Corvo que se queixou do facto de terem caído no “absoluto esquecimento” das autoridades, um mês depois de ter sido desligado o sinal analógico de televisão neste arquipélago. E foram ainda mais específicos: “Apenas duas ilhas e três concelhos do território de Portugal estão completamente excluídos de qualquer cobertura terrestre de TDT (Televisão Digital Terrestre) na rede implementada pela PT Comunicações”. E especificaram que estão nesta situação apenas os concelhos de Santa Cruz e das Lajes, na ilha das Flores, e do Corvo, na mais pequena ilha do arquipélago, sendo “os únicos concelhos portugueses com 0% de cobertura de TDT por via terrestre”.

CONVÉM EXPLICAR QUE os florentinos e os corvinos apenas podiam ver de forma gratuita a RTP 1 e a RTP Açores, situação que deixou de ser possível desde 22 de março, quando foi desligado o sinal analógico no arquipélago, já que nas duas ilhas não há qualquer retransmissão terrestre do sinal de TDT. Os habitantes daquelas duas ilhas disseram ainda que nos anos 80 do século passado, só podiam ver televisão nos escassos dias em que havia bom tempo para a propagação do sinal dos retransmissores de Faial ou da Terceira serem apanhados nos televisores, mas que em 2012 não têm qualquer acesso gratuito a sinal terrestre de televisão – considerando, muito justamente, que voltaram mais de 30 anos atrás…

POSSIVELMENTE VOU REPETIR-ME: mas seria uma falta demasiado grande não referir, mais uma vez, o trabalho que o cantor FF tem vindo a fazer na segunda edição do programa da TVI “A Tua Cara Não me É Estranha”. Convém penitenciar-me e dizer que metia FF naquele grupo de cantores que geralmente se designam por “pimbas” ou “pós-pimbas”, se é que isso existe. Isto é: não o tinha em grande conta. Mas ao ver o que ele faz todos os domingos à noite tive de mudar de opinião. Especialmente este último domingo, em que imitou a cantora Kate Bush de forma soberba. E imitar os agudos (agudos? Agudíssimos!) de Kate não é coisa fácil.

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«(…) o problema não foi apenas a TVI ter-se esticado na quantidade e na “qualidade” dos produtos que apresentou: para a SIC bastou uma cena de baixaria para aumentar as suas audiências. Bastou uma Gisela qualquer, uma ex-concorrente a Miss Portugal, para fazer com que Carnaxide recuperasse muito do espaço perdido. E não foi só: esse efeito acabaria por se repercutir no programa de Herman José, apresentador comum aos dois programas. Coisa de que Herman já não se podia gabar há muito tempo, de resto, e bem pelo contrário. O seu programa, “Herman SIC” andou mesmo pelas ruas da amargura e foi-lhe necessário, de resto, recorrer aos serviços de stripteaser de uma mulher que dá pelo nome de Linda Reis e que já surgira no programa de Herman, como sendo capaz de reencarnar o Dr. Sousa Martins. Ora bolas: então a mulher reencarna ou despe-se? Convinha que se decidisse.»

(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3936 de 18 de Maio de 2012

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