CARLOS FUENTES: PERMANECE A “AURA”
DE UM ENORME ESCRITOR
José Jorge Letria
No final dos anos sessenta do século passado, foi a leitura da novela “Aura” que me revelou a obra do mexicano Carlos Fuentes, já então um nome de referência do “boom” do realismo mágico latino-americano, a par de outros grandes escritores como Gabriel García Marquez ou Mário Vargas Llosa. Foi e continua a ser uma geração de ouro que mudou a história da ficcção narrativa a nível mundial, introduzindo nela o elemento poético, um prodigioso caudal de imaginação e também um apurado sentido social e impressionante fôlego narrativo. De então para cá nenhum deles me decepcionou em termos de grandeza criativa.
Carlos Fuentes, que agora nos deixou aos 83 anos, era, também do ponto de vista humano e cívico, uma das figuras mais interessantes e estimulantes dessa fantástica geração de grandes escritores. Nunca foi, em Portugal, um dos nomes mais populares desse grupo, mas isso não o impediu de se tornar um escritor de referência e até de culto para muitos leitores e escritores portugueses.
Li outros livros seus como “A Região Mais Transparente” ou “A Morte de Artémio Cruz”, mas foi a leitura de “Velho Gringo”, de 1985, sobre as circunstâncias misteriosas em que se verificou o desaparecimento do escritor norte-americano Ambrose Bierce que mais profundamente me marcou, não só pela pujança narrativa e pelo poder efabulatório, mas também pela prodigiosa imaginação. O livro foi depois adaptado ao cinema, com êxito, se não estou em erro com Gregory Peck no protagonista, já em final de carreira, mas ainda com o seu talento interpretativo intacto.
Filho de diplomata de carreira, Carlos Fuentes, que tinha porte aristocrático e uma simpatia tocante e carismática, formou-se em Direito, estudou na Europa, por onde viajou bastante, e tornou-se também diplomata antes de optar pela criação literária a tempo inteiro. A sua obra foi consagrada com prémios de grande prestígio no mundo hispânico como o Cervantes e o Príncipe da Astúrias. Faltou-lhe, porém, o Nobel, que distinguiu cedo García Marquez e já tardiamente Mário Vargas Llosa. Foi, durante mais de três décadas, um candidato natural a esse prémio máximo da literatura mundial, mas não sei se morreu angustiado por nunca ter recebido a coroa de louros da Academia de Estocolmo. Muitos outros também não a receberam e nem por isso deixaram de ser escritores de génio, bastando citar, só entre os latino-americanos, o argentino Jorge Luis Borges.
Nunca esquecerei as circunstâncias especiais em que conheci Carlos Fuentes. Numa deslocação a Turim, por motivos autárquicos, em finais dos anos noventa do século passado, aproveitei para visitar a grande feira internacional do livro daquela cidade italiana, uma das melhores da Europa. Não sabendo quem eram os escritores estrangeiros convidados, pareceu-me avistar, com passo rápido, no labirinto dos “stands”, Carlos Fuentes, mas não podia jurar que era, facto, ele. Depressa deixei de pensar no assunto. Nessa noite, já no hotel, quando esperava o elevador para regressar ao quarto, vi abrir-se a porta e dei literalmente de caras com o escritor mexicano. Não deixando que a timidez me privasse de uma breve conversa, apresentei-me e disse a Carlos Fuentes que, no ano anterior, estivera em cena no Tratro Nacional D. Maria II uma peça minha sobre a pintora mexicana Frida Kahlo, naquela que seria a última encenação de Luzia Maria Martins. Mostrou interesse em conhecer o texto, que eu entretanto lhe enviei, e ainda conversámos durante uns minutos. Trocámos contactos e não perdi a oportunidade de lhe escrever, tendo recebido uma amável resposta sua. Conheci, nessa noite, um dos meus ídolos literários e também um homem de grande integridade intelectual e atenção aos grandes problemas do seu tempo, sobre os quais escreveu alguns luminosos textos ensaísticos.
Depois fui sabendo mais a seu respeito e lendo sempre os seus livros. Soube da trágica morte dos seus dois filhos, que muito o amargurou mas não o derrotou, do seu combate constante contra a corrupção e a violência no México e sobre o modo como, mesmo com 80 anos já cumpridos, continuava a trabalhar diariamente de forma disciplinada e exigente. Era um escritor e um homem de excepção, elegante, grande conversador, de sorriso largo e sedutor e um espírito livre, independente mas comprometido com grandes causas.
Antes de o coração o trair, ainda concluiu um novo romance que é um longo diálogo com Friedrich Nietzche, um dos seus filósofos de cabeceira. Tenho comigo “Adão no Éden”, suponho que o seu último livro a ser editado em Portugal, e recordo-o com muito respeito e admiração. A literatura mundial perdeu um dos seus mais inspirados criadores, e uma perda assim deixa sempre um grande vazio no espírito e na memória dos leitores fiéis, entre os quais me encontro.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3937 de 25 de Maio de 2012

