Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“O AFÁVEL MONSTRO DE BRUXELAS” RETRATADO POR MAGNUS ENZENBERGER EM TEMPO DE REFLEXÕES INADIÁVEIS

José Jorge Letria

Sou, desde finais dos anos sessenta do século passado, um admirador confesso da obra do poeta e filósofo alemão Hans Magnus Enzenberger, a quem dedico este artigo, também como forma de acentuar a necessidade de não se confundir a Alemanha da senhora Merkel com o imenso património de pensamento, de cultura e arte de um país sempre de importância central para o presente e para o futuro da Europa.
Nascido em 1929 na Baviera e várias vezes distinguido com grandes prémios alemães e europeus, Hans Magnus Enzenberger, que, como poeta, herdou uma parte do legado realista e combativo que está presente na obra de Bertold Brecht, é autor de ensaios fundamentais como “Perspectivas da Guerra Civil” e “A Grande Migração”, nos quais propôs ao leitor reflexões heterodoxas e de grande actualidade sobre aquilo que se passa na Europa de hoje, mesmo antes da eclosão da crise que agora nos atormenta e de que a Berlim de Ângela Merkel pretende ser a autoritária chefe de orquestra, mesmo quando se faz rodear de outros maestros de circunstância para compor o ramalhete da sua estratégia eleitoralista e anti-solidária.
De Hans Magnus Enzenberger acaba de ser publicado em Portugal o pequeno ensaio “O Afável Monstro de Bruxelas ou a Europa Sob Tutela” (Relógio d’Água), que merece uma leitura atenta e uma reflexão apurada.
De forma objectiva, muito documentada e frequentemente contundente, o autor denuncia a teia burocrática que domina a máquina instalada em Bruxelas e Estrasburgo, considerando que o ideal fundador da União foi destruído por essa imensa teia burocrática e pelos interesses que ele protege e perpetua.
O autor interroga-se sobre a legitimidade do processo decisório no qual protagonistas desconhecidos ou quase determinam, no insondável conforto dos gabinetes, os rumos, as opções e o próprio futuro deste continente.
E vai mais longe: considera, a partir de uma investigação de fundo que entretanto realizou, que a democraticidade interna da instituição e dos seus processos está há muito em causa e que advém daí uma boa parte da crise e da ruína que ameaçam a Europa.
Em tempo de crise estrutural das instituições, das economias e da própria ideia de União, com os ricos a tornarem-se cada vez mais poderosos e impositivos, é natural que os cidadãos europeus se questionem sobre a dimensão mastodôntica, a opacidade e os custos de uma instituição que, neste contexto crítico, perdeu uma parte substancial da sua liderança a favor dos directórios construídos a partir da alianças entre as chancelarias dos países mais ricos.
Talvez os eurodeputados não de dêem, ou não se queiram dar, conta disso, mas são muitos os funcionários comunitários que em Bruxelas se apercebem do ambiente negativo e até da agressividade criados à volta deles e contra eles por parte de pessoas que nada têm a ver com as estruturas da União e que fazem contas às viagens, aos subsídios, às deslocações massivas a Estrasburgo e ao custo global de uma gigantesca máquina cuja eficácia tem vindo progressivamente a ser posta em causa.
O que Hans Magnus Enzenberger propõe ao leitor, de forma corajosa e bem fundamentada, é que não deixe de reflectir sobre esta questão de fundo. Não está em causa o futuro da União. O que está em causa é o modelo burocrático em que assenta, os custos que tem, a forma pouco participada como decide e condiciona as realidades nacionais e, já agora, também a capacidade de intervenção dos eleitos nacionais integrados em grandes grupos políticos europeus que ninguém sabe se continuam ou não a rever-se nesta forma de organização política transnacional.
Hans Magnus Enzenberger, poeta, romancista e grande ensaísta, não está contra a ideia de uma Europa unida e solidária. Está sim contra este “afável monstro” que já ninguém sabe ao certo que poder tem e em que medida contribui com os seus custos de funcionamento, ainda que em fase de contenção, para perpetuar a própria crise.

Crónica publicada no Jornal de Sintra de 29 de Junho de 2012, ed. 3942, pág. 3

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