Semanário Regionalista Independente
Sábado Outubro 24th 2020

História Local – O Relógio da Estefânia

F. Hermínio Santos

Não se conhece a data precisa em que foi colocado na fachada da relojoaria e ourivesaria M.1) Martinho, sita no n.º 372) do prédio do Largo Afonso de Albuquerque, em Sintra, então denominado Largo da Estephania, o relógio de duplo mostrador, comummente designado como o Relógio da Estefânia. No prédio referenciado destaca-se no piso superior o Hotel Nova Sintra e no inferior um conjunto de estabelecimentos comerciais.

O relógio estava colocado em 1954 no primitivo local

O relojoeiro e ourives Augusto Martinho instalou-se na­que­le prédio na se­gun­da metade da pri­mei­ra década do século XX. Um anúncio publicado no jornal Echos de Cintra, de 19 de Abril de 1908, dá-nos conta que Augusto Martinho era especialista «em concertos de relojoaria, ourivesaria e máquinas de costura», sen­do o único agente em Sintra das máquinas de costura da marca «Anker». Após o seu falecimento, em data que não foi possível precisar, o esta­belecimento passou a deno­mi­nar-se Relojoaria e Ouri­vesaria M. Martinho, e era apre­sentado, através de anún­cio publicado no jornal A Voz de Sintra, de 22 de Agosto de 1921, como tendo um «lindo e variado sortido de objectos de ouro e prata (…) e «relógios de bolso e de sala, dos melhores autores», referindo ainda que faziam «concertos, ainda os mais difíceis, com a máxima perfeição, sendo essa a especialidade da casa».

Terá sido a viúva de Augusto Martinho a mandar colocar o relógio na frontaria do seu estabelecimento. A inscrição do seu apelido no mostrador com numeração romana justifica aquela nossa convicção. Em finais de 1954 o relógio ainda estava colocado por cima da porta de entrada para o estabelecimento que originalmente era a relojoaria e ourivesaria e que, pelo menos desde Agosto de 1946, passou a ser a Alfaiataria Estefânia, de Artur A. Rodrigues. Em data que desconhecemos o relógio foi transferido para a frontaria da Farmácia Marrazes, tendo o farmacêutico Armindo Gonçalves Marrazes assumido as funções de zelador.

O Relógio da Estefânia apresentava dois mostradores: um com marcação de doze horas, em numeração romana, e outro com indicação das vinte e quatro horas, estas assinaladas por algarismos árabes pintados, os pares a vermelho e os ímpares a preto. Cada um dos mostradores tinha um diâmetro de 50 cm estando embutidos numa caixa de madeira pintada a verde. O sistema mecânico era comandado a partir de outro relógio, este integrado numa caixa de madeira, com a altura aproximada de 70 cm, colocado no interior dos estabeleci­mentos, designadamente da relojoaria e ourivesaria e, posteriormente, da farmácia. O seu mostrador apresentava três coroas circulares, sucessivamente do exterior para o interior, com o traçado para visualização dos minutos, números romanos e numeração árabe, ambos para indicação das horas. Na parte inferior, entre os números «VI» e «18» estava aberto o orifício por onde era dada corda, o que fazia movimentar um pêndulo existente no interior da já referida caixa.

Pela verosimilhança com os relógios das estações de caminho de ferro, muitos já desaparecidos, pensa-se que o Relógio da Estefânia, foi fabricado em França nas oficinas de relojoaria dos descendentes de Paul Garnier, que em meados do século XIX era o relojoeiro do rei francês, aparecendo, em 1913, o nome da sua casa como responsável do sector de relojoaria da Marinha Francesa.

O proprietário da Alfaiataria Estefânia terá entrado em negociações com o então proprietário do imóvel tendo em vista a transferência do estabelecimento para outro espaço mais amplo, ocupado pela casa de ferragens e drogaria de Carlos da Fonseca Santos. Sem que as condições de transferência tivessem sido finalizadas, o relógio foi transferido para a frontaria da farmácia. Artur A. Rodrigues, proprietário da alfaiataria, acabou por não concretizar o negócio. Contudo, o relógio manteve-se na fachada da Farmácia Marrazes, tendo sido legado à comunidade, ficando o seu bom funcionamento sob a responsabilidade do farmacêutico Armindo Gonçalves Marrazes.

Local onde o relógio permaneceu até 25 de Setembro de 2009

No início da década de oitenta do século XX o relógio estava parado. Por iniciativa do Rotary Clube de Sintra, a que o rotário Jacinto Botelho Baeta deu sequência, o relojoeiro António Faria, com estabelecimento da especialidade no Largo Afonso de Albuquerque, n.º 7, verificou o seu estado de funcio­namento. Chegou à conclusão de que o mesmo necessitava apenas de lubrificação e que lhe dessem corda. Os empre­gados da farmácia comprometeram-se a cumprir este proce­dimento de modo a que o mesmo continuasse a proporcionar a visualização das horas aos passantes no Largo Afonso de Albuquerque bem como aos clientes da farmácia, dado que no interior do estabelecimento estava um relógio cujo mecanismo comandava o localizado no exterior. Porém, aquela prestação de serviço não durou muito tempo pelo que o Relógio da Estefânia voltou a parar. Nessa altura foi incumbido de dar corda ao relógio, por iniciativa de António José Silvestre, também membro do Rotary Clube de Sintra, um empregado do estabelecimento «Armazéns Silvestre», situado, na altura, a poucos metros da farmácia. E assim se manteve em funcionamento até à década de oitenta do séc. XX, altura em que foram executadas obras de remodelação na farmácia, tendo o relógio de comando sido retirado, o que provocou a inoperacionalidade do que estava colocado no exterior, que foi retirado em 25 de Setembro de 2009.

Tendo o proprietário do prédio, Miguel Narciso, estabelecido um plano de remodelação dos diferentes estabelecimentos, a Junta de Freguesia de Sintra (Santa Maria e S. Miguel), presidida por Eduardo Duarte Casinhas, sabendo que se tratava de um relógio oferecido à comunidade pela Relojoaria e Ourivesaria M. Martinho, deliberou mandar executar uma réplica do velho relógio em que figurava o diagrama «M. Martinho». O novo relógio, com motor eléctrico, mostradores iguais aos originais e caixa similar à que se encontrava totalmente danificada pelo tempo, permite agora aos transeuntes do Largo Afonso de Albuquerque desfrutarem, novamente, de informação horária.

O novo relógio foi colocado na frontaria da Farmácia Marrazes, com a anuência da sua proprietária, Dr.ª Célia Maria Simões Casinhas e do proprietário do imóvel, Miguel Narciso, no dia 25 de Junho de 2012. Foi instalado no interior daquele estabelecimento um outro relógio digital com a função, simultânea, de relógio e comando para os mostra­dores colocados no exterior.

O Largo Afonso de Albu­querque foi de novo dotado de um relógio pertença da comunidade, representada pela Junta de Freguesia de Sintra (Santa Maria e S. Miguel), que assim fica com a incumbência de o manter em perfeito funcio­namento.

Notas ao texto:

1) – Maria Martinho;

2) – O número de polícia 37, do Largo Afonso de Albu­querque, corresponde actual­mente ao n.º 17.

Publicado no Jornal de Sintra, ed. 3944 de 13 de Julho de 2012.

 

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