José Jorge Letria
Ciclicamente regressa o mito do pastel de nata enquanto um dos potenciais salvadores da nossa pobre economia. A ideia veio de um ministro cujas saudades de Portugal, quando era docente em Vancouver, devem ter sido algumas vezes mitigadas com o sabor inconfundível dos nossos pastelinhos de nata.
Já estou a imaginar o presidente do Banco Europeu, a senhora Merkel e outras grandes figuras da cena político-financeira europeia a receberem pacotes de pastéis de nata acompanhados por mensagens ternas e juras de cumprimento integral do acordo com a troika. O problema é que as bocas dos portugueses que todos os dias enfrentam a amargura da austeridade que os sufoca e lhes rouba as perspectivas de futuro não conseguem ser adoçadas nem por doses industriais do simpático pastel.
É certo e sabido que somos muito criativos, desenrascados e até reis do improviso, com o mesmo espírito que nos permitiu, há mais de 500 anos, chegar às praias do território que viria a receber o nome de Brasil e confundirmo-nos com a paisagem e com as práticas dos índios locais. Entretanto, passaram séculos e correram muitas águas debaixo das pontes e deixou de vir o ouro do Brasil, as especiarias da Índia, o lucro astronómico da venda do volfrâmio durante a Segunda Guerra Mundial e também os fundos comunitários que nos permitiram ser campeões de rotundas e auto-estradas, mesmo que elas não desemboquem em parte alguma.
E enquanto andávamos distraídos com a bruma inebriante deste progresso torrencial, ia-se enraizando a poderosa máquina da ganância e da corrupção que deu origem a muita coisa triste e vergonhosa, a começar pelo chamado “caso BPN”, espinha imensa atravessada na garganta de um povo vergado ao peso da canga que a teia de cumplicidades, a má governação e a impunidade dos responsáveis lhe colocou sobre o pescoço.
É por isso que a quimera do ouro alentejano e da internacionalização dos pastéis de nata nos deixa incrédulos, a meio caminho entre um sorriso céptico e um encolerizado cerrar de dentes. E apetece recordar o poeta Carlos Queiroz, sobrinho de Ofélia Queiroz, namorada de Fernando Pessoa e autor de excelente textos poéticos, quando escrevia que “só fazemos bem torres de Belém”. É claro que fazemos bem muitas outras coisas, mas, pelos vistos, nenhuma delas chega actualmente para amortizar as dívidas nacionais e restaurar o capital de esperança sem o qual a palavra “futuro” se torna angustiante e vazia de sentido.
Todos os dias nos são pedidos novos sacrifícios, mas é sabido que os sacrifícios só são suportáveis e toleráveis se houver equidade e justiça forma como são distribuídos. Enquanto os ricos se tornam cada mais ricos, em nome do “fantasma” da fuga de capitais, os pobres vão resvalando para a valeta funda e lúgubre do desconsolo, da descrença e de uma temerosa passividade, herdeira directa de um ainda vivo passado salazarista.
Nas fileiras da maioria de governo parece instalada a convicção de que ir mais longe e mais fundo nesta lógica destrutiva da nossa economia e do que ainda resta de uma anémica classe média poderá ter consequências políticas e sociais inimagináveis. Mas nem assim mudam de rumo.Por seu turno, dr. Portas, político experiente e arguto, tem essa percepção clara e até já escreveu aos militantes do seu partido a garantir que não haverá concordância com novas medidas de austeridade. Se elas surgirem, será que, perante o cenário traçado, poderemos ter de avançar para novas eleições ?
O próprio Presidente da República demarca-se como e quando pode desta política de austeridade e profunda injustiça social, mas nem isso o deixa ao abrigo de públicas vaias, talvez porque ainda muita gente se recorde que foi durante a governação cavaquista que o Portugal novo-rico, todo feito de betão, prosápia, despesismo e ostentação, se deixou inebriar por ilusões e equívocos que viriam a sair-nos muito caros. As governações seguintes trataram de fazer o resto, numa eterna parceria público-privada entre a irresponsabilidade e o medo de encarar a verdade. É por isso que esta crise deixou de ser apenas de governação, ou seja, de gestão político-financeira, para se converter numa grave crise de regime que, como é natural, não deixa de fora o sistema judicial, o mundo da comunicação social, o sistema educativo, e mais grave do que tudo o resto, a própria credibilidade do Estado, que é coisa muito mais séria e profunda que a da política e dos políticos.
Aqui chegados, resta-nos o sonho dos pastéis de nada a conquistarem o mundo, fazendo a vez das caravelas que entretanto foram ao fundo juntamente com a maior parte frota pesqueira, por imposição de Bruxelas. Mas ainda falta polvilhá-los com a canela das velhas ilusões, a mesma cujo cheiro doce e enganador, como lamentava o grande Sá de Miranda, nos foi despovoando o reino. Enquanto isto, voltámos a ser um magoado país de emigrantes, incluindo os do futebol, que ainda um dia gostaria de se libertar desta sina e desta fama de só fazer bem torres de Belém e galos de Barcelos. Por este andar, corremos o risco de ainda vir a ser a pátria dos pastéis de nada.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3 da edição n.º 3943 de 6 de Julho de 2012

