Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 28th 2022

O INSUSTÁVEL CANSAÇO DOS PORTUGUESES

José Jorge Letria

Os Portugueses estão cansados, muito cansados, de promessas incumpridas, de sacrifícios constantemente agravados, de mentiras sempre adoçadas com a patine do interesse nacional. Estão cansados de muitos anos de más políticas, mas sobretudo deste inenarrável ciclo que se iniciou no Verão de 2011 e que está prestes a resvalar para uma crise que tem como razão de ser mais directa esse cansaço sem limites que deixa milhões de pessoas à beira do desespero, da descrença total, da angústia e da impotência.
Esse sentimento de derrota e de revolta está patente no rosto das pessoas que connosco se cruzam nas ruas e que temem até pronunciar a palavra “futuro”, tamanha é a carga de incerteza e de temor que lhe está associada, não só em Portugal mas neste mundo à beira de convulsões vão desde os separatismos reemergentes ( o que será de Espanha se a Catalunha enveredar mesmo pelo caminho da independência ?), de fanatismos violentos ( depois do que aconteceu na Líbia com o assassinato do embaixador norte-americano não será altura de se pensar no que representou e representa a chamada “primavera árabe” ?), de gangsterismo financeiro como o que originou a crise iniciada em 2008, de impunidade dos responsáveis financeiros e de agravamento das assimetrias sociais que tornam os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Tenha-se presente o número de carros desportivos de grande cilindrada e preços exorbitantes que continuam a vender-se em Portugal (o negócio está florescente e em ascensão) e perceber-se-á que muita coisa está verdadeiramente podre neste reino da Dinamarca e que não vai bastar, como escrevia Lampedusa em “O Leopardo”, mudar alguma coisa para que tudo acabe por ficar na mesma.
No fundo, precisamos hoje, mais do que nunca, da coragem e do estoicismo dos medalhados paralímpicos portugueses e de muitas outras nacionalidades que, mesmo constrangidos pelos mais diversos graus de deficiência, transformaram as fraquezas em forças e alcançaram o pódio da glória que só distingue quem tem a capacidade de contrariar a adversidade e de construir o seu próprio destino.
Como disse o ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, de 80 anos, em visita a Portugal, tem faltado, em geral, aos políticos que lideram uma verdadeira visão de futuro, pelo que não se pode chamar estadista a um qualquer governante, dado que esse título e estatuto só o futuro o pode confirmar e consagrar.
Estamos a ser governados por políticos medíocres, sem cultura nem estratégia, que, em nome do respeito pela cartilha do devedor, se mostram dispostos a flagelar a esmagadora maioria deste povo, ao mesmo tempo que destroem a economia nacional e o que resta do parco capital de esperança que nos pode ainda dar forças para resistir. É certo que têm a legitimidade do voto, em regime de coligação, mas o clamor da indignação popular reclama uma nova legitimidade que não se refresca com votos de confiança na Assembleia da República. Aliás, está por saber até onde irá a solidariedade política do parceiro de coligação que dá sinais de não se querer “queimar” ainda mais politicamente do que já se “queimou” ? Será preciso citar os nomes de Ribeiro e Castro ou de Bagão Félix para se perceber a extensão e a profundidade dos sinais de mal-estar, para já não referir as vozes de discordância em relação à anunciada privatização da RTP, hoje posta em causa pela força sempre crescente da oposição a esta medida lesiva dos interesses nacionais e do muito que foi construído, em matéria de comunicação social, em quase 40 anos de democracia ?
Se dúvidas houvesse ainda quanto à impossibilidade de esta política ser mantida, bastaria ouvir a memorável entrevista de Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD e ex-ministra das Finanças à TVI 24, na qual denunciou a insensibilidade social, a falta de ligação à realidade e o processo de destruição da economia e do país que caracterizam o governo de Passos Coelho, tendo mesmo apelado à desobediência civil e política dos deputados do seu partido no sentido de “chubarem” o Orçamento de Estado que aí vem. Sabendo-se como é próxima a ligação de Ferreira Leite ao Presidente da República, é muito natural que ele se reveja nestas palavras, mesmo que considere que o primeiro sinal deve vir da maioria parlamentar. Mas não será que a gravidade da situação para os Portugueses e para Portugal não requer uma intervenção urgente de Belém ?
Repito: os Portugueses estão cansados e não há forma de os fazerem resignar-se com a injustiça social, fiscal e económica de que está a ser vítima em cada dia que passa. Por muitas pedras que se ponham no leito do rio, ninguém consegue alterar o seu rumo em direcção ao mar. Estes políticos sem estratégia, sem visão de futuro, sem sensibilidade social e sem outra ideologia que não seja a da liquidação do Estado para favorecer os interesses privados que depois os hão-de recompensar, como de resto já aconteceu com alguns nomes conhecidos num passado ainda recente, estão em fim de ciclo, mas ainda não perceberam, ou não quiseram perceber. Em democracia há sempre soluções e saídas. Basta que os responsáveis assumam as suas responsabilidades e que prevaleça o verdadeiro interesse da nação, que não pode estar à mercê de gestores de falências transformados em governantes pela força das circunstâncias, que nunca é definitiva nem irreversível.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3950 de 28 de Setembro de 2012

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