José Jorge Letria
As ruas e as praças fizeram ouvir a sua voz, ou seja, a voz de cerca de um milhão de pessoas de todas as idades e das mais diversas opções e convicções que, muito para além da lógica do protesto partidário ou sindical, unidas por um imenso caudal de revolta, decidiram gritar “Basta !”. E ninguém, mesmo no seio desta maioria ferida de morte, se atreveu a relativizar a importância social e política do clamor proveniente das ruas.
Como vivi intensamente o que se passou nas ruas e nas praças deste país nas semanas e meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, tenho memória e, portanto, termo de comparação, e não me recordo de ter visto, excepção feita ao primeiro 1º de Maio, um mar de gente a encher as grandes praças e avenidas de dezenas de cidades e a desembocar num local tão simbólico e determinante como é a Assembleia da República, sede da nossa vida democrática.
Este clamor de revolta foi fortalecido pela presença de várias gerações, as dos avós, dos filhos e dos netos, da geração dos que já sofreram muito e a daqueles que não abdicam de ter nas mãos as rédeas do seu próprio destino. Foi comovente, único e mobilizador, sendo de realçar e de aplaudir a serenidade e o civismo que permitiram a difusão neste mundo global (o digital e o outro) de imagens de maturidade e de compreensão do que é essencial no convívio democrático, mesmo quando ele se torna grito de protesto no coração das ruas de uma pátria magoada, triste e revoltada.
Ficarão na nossa memória as imagens de mulheres a entregarem cravos, os mesmos que universalizaram a mensagem de Abril, a agentes do corpo de intervenção da PSP. Mesmo as pessoas mais indignadas e amargas conseguiram descobrir um sorriso ténue na bagagem das suas emoções contidas e feridas. Um Portugal assim merece muito melhor do que esta governação caótica, incompetente, arrogante e servil em relação aos interesses das grandes potências europeias e mundiais e das grandes fortunas que há em Portugal. Um Portugal assim merece ter, num quadro democrático, uma alternativa que não o sujeite à servidão e à miséria que o radicalismo neoliberal lhe está a impor, com base numa cartilha ideológica bem conhecida e de consequências sempre nefastas para os direitos e interesses da esmagadora maioria.
Vi nas ruas este milhão de portugueses (pouco me interessam os cálculos minuciosos dos especialistas em estatísticas e outras coisas numerológicas) e confesso a minha comoção, porque, no meu espírito, têm de novo timbre de coisa viva, actuante e virada para o futuro as palavras “resistir” e “protestar”, que o pensamento único que nos dominou nas duas últimas décadas fez cair em desuso, ao ponto de se tornar ridículo quem continuou a utilizá-las.
Sei e sinto que existe uma geração agora a crescer para a vida, e que nada tem a ver com os preconceitos anti-25 de Abril que surgiram por razões políticas, ideológicas ou meramente psicanalíticas, que irá descobrir essas e outras palavras e integrá-las no vocabulário essencial da sua cidadania combativa e exigente. E é justamente essa cidadania que reclama o início de um novo ciclo, de um novo tempo e de um novo modo de fazer política, que, sempre num quadro democrático, faça renascer nas pessoas a confiança na política, nos políticos e nos valores da República. Se esse tempo não chegar, muito mal está Portugal, a vida dos Portugueses e o futuro dos nossos filhos e netos. E aqui apetece-me recordar palavras do grande escritor francês André Gide, que dizia: “O mundo só poderá ser salvo, caso o possa ser, pelos insubmissos”. Foram esses insubmissos que estiveram nas ruas, nas praças e nas avenidas, de voz afinada contra a destruição da nossa vida colectiva e de coração aberto para o futuro. Quando isso acontece, que ninguém, por cegueira, sede de poder, irracionalidade ou apenas estupidez, se atreva a tentar falar mais alto do que a rua.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição 3949 de 21 de setembro de 2012

