E vai-se a ver, caramba, e é uma jóia…
Bernardo de Brito e Cunha
ACONTECEU NO ÚLTIMO sábado, como se sabe, mais uma manifestação. Atrever-me-ia a dizer, dada a forma que as coisas levam, que foi mais uma entre muitas outras que se seguirão: porque aquela máxima (mínima?) de “pagar a dívida custe o que custar” tem efeitos práticos mais visíveis sobre os mais desfavorecidos. E para os que pertencem a esta designação, como até o próprio Presidente da República e diversos bispos (que são pessoas insuspeitas) fizeram notar por um par de vezes, “há limites”. Quando o pão começa a faltar, a mole humana acaba por reagir, mesmo tratando-se de um povo de brandos costumes. E foi neste contexto, então, que aconteceu mais uma grande manifestação. E era isso que vinha ao caso. Porque me deu ideia que as televisões, de uma forma geral, foram mais recatadas nas suas transmissões da mesma. Isto é, pareceu-me que os canais generalistas, ao contrário do que aconteceu no dia 15 de Setembro, mantiveram as suas programações normais e que só os canais noticiosos – transmitidos no cabo – fizeram ligações em direto. Não sei se isto se ficou a dever a uma de duas circunstâncias (ou qualquer outra): à hora da manifestação, quanto a mim marcada para um pouco cedo, ou ao facto de esta ter sido convocada por uma central sindical. Inclino-me para uma habilidosa combinação das duas.
FIQUEI ESPANTADO com a notícia da Procuradoria-Geral da República segundo a qual “relativamente aos chamados ‘casos Miguel Relvas’ não foi instaurado qualquer inquérito, tendo cessado as averiguações feitas por não terem sido encontrados ilícitos criminais”. Já se sabe que a PGR não é como nas séries de televisão e que, pelo contrário, são muito poucas as coisas que consegue descobrir. Recordemos que a 12 de Setembro último, o Ministério Público havia anunciado que estava a averiguar o caso relacionado com a licenciatura de Miguel Relvas na Universidade Lusófona e que já tinham sido juntos ao processo “documentos necessários”. Atenção às duas últimas palavras. A PGR pode não ter descoberto ilícitos criminais no número de equivalências que Miguel Relvas obteve na Universidade Lusófona: mas não é estranho que o ministro se tenha licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais em 2007, depois de ter sido admitido em 2006 e de lhe terem sido atribuídos 160 créditos dos 180 necessários para concluir a licenciatura, créditos esses que lhe foram concedidos com base na experiência profissional e académica que demonstrou, tendo apenas teve de fazer quatro disciplinas quatro? E no caso das pressões feitas a uma jornalista do Público, também não se encontraram ilícitos? E no caso das secretas? Também não? Pronto, então o homem é um santo – embora a cara não me engane.
HÁ MUITOS ANOS que sigo as medições de audiências televisivas da Marktest, embora já não seja ela a fornecedora oficial desses mesmos resultados. Continuo a achá-los fidedignos e, portanto, a deixar de lado os da outra empresa escolhida. Tenho acompanhado, e disso aqui tenho dado conta, ao crescimento do grupo que é designado por “Cabo/Outros” e que engloba, sem distinção, aquilo que vemos através do cabo, mas também as consolas de jogos e os leitores de DVD ou vídeo. Se é verdade que um estudo da mesma Marktest apontava para o facto de em cada quatro portugueses três terem televisão por cabo (o que corresponde a 75 por cento e me parece um número muito grande) a verdade é que esse grupo do Cabo/Outros já ultrapassou qualquer um dos canais em sinal aberto, aproximando-se rapidamente dos 30 por cento. É verdade que nesses haverá quem veja, através do cabo, a “Casa dos Segredos” ou o “Telejornal” – mas também deve haver, e não será uma parcela despicienda, quem procure o National Geographic, a Fox e as suas séries, o Hollywood e os seus filmes e tantas outras coisas mais saudáveis. Ou menos perniciosas, como se prefira. E parece-me que estes números mereceriam, por parte dos programadores dos canais abertos, uma reflexão profunda.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Isto para vos confessar uma coisa: é que desde que voltou esta nova série de episódios dos “Ficheiros Secretos” – série, de resto, que não me cansei de gabar nestas mesmas colunas – eu ainda não consegui ver um episódio até ao fim. A coisa começa muito bem, acho os episódios sempre muito interessantes, mas depois, zás!, lá vem o intervalo que me atira para o lado. Repito: não consegui ver um episódio inteiro. E confesso o meu receio de, na próxima segunda-feira, me voltar a pôr em frente ao aparelho de televisão. É que se eu ao menos tivesse insónias, pois aqui estava um óptimo remédio. Mas não: durmo como um justo (força de expressão, está-se bem a ver, que de justo não terei grande coisa) e, portanto, gostava de poder ver um programita ou outro que não fosse o “Big Brother”. Só para desenjoar daquela gente.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3951 de 5 de Outubro de 2012

