Os desígnios insondáveis de Rosário
Bernardo de Brito e Cunha
ACHO QUE TODOS temos um pouco disto: o de haver um programinha qualquer que não perdemos, dê por onde der, semana após semana. Uns talvez se inclinem para um programa de informação específico, outros para uma série, outros ainda para uma novela ou, quem sabe, até deve haver quem não perca a “Casa dos Segredos”. Casa essa, digamo-lo de passagem, que não tem conseguido bater, em termos de audiências, a novela transmitida pela SIC, “Dancin’ Days”, coisa incompreensível sobretudo se atentarmos que, logo a seguir, aparece a nova versão de “Gabriela” e, como se não bastasse, grandes interpretações em “Avenida Brasil”. Até parece que a SIC voltou aos tempos de Rangel, com novela atrás de novela – afinal as armas da TVI. Isto era capaz de merecer uma outra análise, talvez mais profunda e cuidada, mas ficará para uma outra vez: por agora voltemos ao programinha que eu não perco.
TEM UM NOME, naturalmente: “Mudar de Vida”. E uma interveniente constante e permanente, de sua graça Rosário Salgueiro, jornalista da RTP. E que faz Rosário? Todas as semanas, pontualmente, muda de vida. Lembro-me das edições mais recentes, em que foi sucessivamente empregada de um hotel de cinco estrelas e onde efetuou diversas tarefas domésticas, próprias de uma empregada que faz camas, limpa, etc; depois trabalhou na apanha da cortiça, bem como na sua transformação; e finalmente, na última segunda-feira, vi-a transformar-se em tratadora/alimentadora de muitos dos peixes e outras espécies marinhas que se encontram nos tanques do Oceanário de Lisboa. E não é que Rosário consegue fazer, em 30 minutos, um trabalho notável? Ela vai trabalhar para aqui e depois para acolá e esta espécie de vida que ela tem – e que é obviamente falsa, falsa no sentido de que devem ser várias semanas aqui e outras tantas acolá – esta vida que ela leva, dizia, surge tão cheia de encantos (e durezas: mas sobretudo encantos) que parece ser a vida que todos gostávamos de ter. No programa do Oceanário dei comigo a pensar “Era isto que eu gostava de fazer!” e de certeza que, para a semana, a vontade irá onde me levar a Rosário.
ROSÁRIO SALGUEIRO é, muitas vezes atirada às feras, embora não acredite que seja totalmente sem rede: no Oceanário, por exemplo, teve como primeira tarefa… ir alimentar um tubarão. E aí ficámos a saber porque razão, no Oceanário, os predadores (os tubarões, as mantas…) são alimentados cinco vezes por dia: para que não tenham de comer as outras espécies. Nunca isto me tinha passado pela cabeça, ou melhor, tinha pensado como seria que a coisa se evitava – e nunca pensara nesta solução simples: mantê-los alimentados. Elementar.
BOM. ATÉ FICARIA MAL se não dissesse mal do Governo, como cada vez mais é da praxe. Duas coisinhas, então. Quando o ministro de Estado e das Finanças Vítor Gaspar falou em “mitigar o agravamento” de impostos no próximo ano, todos trememos… porque ele não dá ponto sem nó. Alguma coisa nos há-de tirar, caramba! Até porque nos foi avisando que “quer a troika, quer o Eurogrupo considerarão positivo se for possível substituir algumas das medidas de agravamento do lado da receita por medidas de corte de despesa”. Como naquela história “larga, liberal e moscovita” do desconto de 15 por cento nas SCUT – e que, afinal, só se aplica a quem fizer os troços todos. Quem não fizer… até pode sair mais caro. Porque não esqueçamos que em 2013 o défice terá de cair para 4,5 por cento e, em 2014, para os 2,5 por cento e que a meta estabelecida inicialmente era de 4,5 por cento já para 2012. Conclusão: estamos tramados. Vítor Gaspar é que ainda não explicou quanto e onde.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Depois, mais recentemente, estreou um trabalho de fôlego, que estava pronto há um ror de tempo, mas que o consulado de Emídio Rangel decidira, quem sabe, guardar para uma altura mais estável. Como se trata de “O Processo dos Távoras”, caso histórico que vai quase para 300 anos, esperar mais mês menos mês não faz diferença, não é? Até aqui, portanto, tudo bem. O problema maior é que o novo (no cargo) director de programas da RTP, Luiz Andrade, decidiu estrear este trabalho que não foi fácil nem barato, nem mais nem menos do que no mesmo dia em que, na TVI, se assistia a mais uma saída da casa do “Big Brother Famosos”. Talvez um dia destes mudem a série para um outro dia qualquer onde aconteça qualquer coisa que não faça tanta mossa.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3952 de 12 de Outubro de 2012

