A Globo e os pobrezinhos
Bernardo de Brito e Cunha
ESTIVERAM QUASE a par, em termos de audiências, as duas Angelas Merkel que a RTP pôs no ar domingo à noite. Uma hora depois de Isabel Silva Costa ter entrevistado na RTP a senhora que manda na Europa – mas que disse que não tem nada a ver com o programa da troika imposto a Portugal, como se nós acreditássemos – foi a vez de Maria Rueff e Ana Bola se travestirem, respetivamente, de Judite de Sousa e Merkel. Embora as duas entrevistas fossem aquilo de que se estava à espera, a segunda teve mais graça, talvez porque não tivesse legendas e fosse falada num “alemaguês” perfeitamente compreensível. Em termos de público, e segundo a empresa que agora manda nas audiências, qualquer dos programas teve 400 e tal mil espetadores, com uma ligeira vantagem da dupla Isabel-Angela. Fosse a medição feita como antigamente e pela empresa que então media tais números, e esses números passariam talvez (e pelo menos) para o dobro, o que teria sido interessante para a RTP. Assim, com essas quatro centenas de milhares, foi apenas um número de “estação do Estado” e pronto.
JURO QUE NÃO ESPERAVA: a verdade, no entanto, é que a Globo deu um golpe de rins e conquistou audiências. Presente nas grelhas das televisões por cabo, a pagar, há um par de anos, a Globo deve ter percebido que os programas de Jô Soares e Marília Gabriela, ou o “Bom Dia Brasil”, não eram bastantes para que se pagasse (mais) aquela mensalidadezinha. E então que faz? Cria uma espécie de Globo dos Pobres que, mesmo assim, é bem melhor que muita coisa que para aí há. Quem se preocupa com a fraca qualidade do som – se o canal é gratuito? Quem se aborrece por ter uma alternativa às bambochatas das novelas da TVI – sobretudo se essa alternativa estiver incluída no pacote básico que já paga? E quem se importa de ter filmes falados em português (do Brasil, é certo), sem legendas – se não paga mais por isso?
Esta versão light da Globo apresenta coisas novas e vai buscar algumas antigas, que alguns gostarão de recordar: pusessem eles, em reposição, o “Sai de Baixo” em concorrência de horário com a “Casa dos Segredos” e lá teria a TVI de repensar os seus horários. Mas temos, em contrapartida, “Mais Você”, apresentado pela fabulosa Ana Maria Braga na companhia do papagaio Louro José. o programa aposta em temas informativos e nos assuntos que interessam à família, como economia, saúde e comportamento. O programa conta com várias rubricas: ‘S.O.S Mais Você’, ‘Será que eu Posso’, com o economista Roberto Zentgraf, ‘Tapa no Visual’, ‘Tem Visita’, ‘Te Peguei’ e ‘De Malas Prontas’. ‘Culinária Gourmet’, ‘Fácil e Gostoso’ são rubricas culinárias.
ESTE CANAL trouxe ainda uma outra coisa, que é mítica – “a novela das 8”. Que nesta altura está ocupada por “Aquele Beijo”, de Miguel Falabella, e onde já vi três portugueses: Ricardo Pereira, Marina Mota e Maria Vieira. Esta é a possibilidade de ver novelas novas e outras que já cá passaram há anos, como “Viver a Vida” ou “Malhação”. E aos domingos, depois da sessão de cinema, há a possibilidade de ver o programa “The Voice”, de que já tivemos uma versão em Portugal, com Rui Reininho e Paulo Gonzo entre os jurados que tentam formar equipa com as melhores vozes a concurso. Nesta versão brasileira encontramos, entre os jurados, os nomes (grandes) de Lulu Santos e Carlinhos Brown.
ISABEL JONET esteve na baila, esta semana, com uma frase que disse. Já o tinha estado, há uns anos, quando tentou impedir que a expressão “banco alimentar” fosse utilizada numa coisa semelhante, destinada aos animais. Disse ela, esta semana, que “temos de reaprender a viver mais pobres”. Isto é, aceitou uma consequência, sem lhe atacar a origem. Tivesse ela pronunciado uma censura (ela deve dizer reproche) contra o consumismo desenfreado, o desperdício dos recursos, a cultura materialista das sociedades da abundância capitalista, e teria saído em ombros. Escolheu mal as palavras. Como já o fizera com os animais.
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«No espaço de uma hora verifica-se uma quebra de quase 800 mil espectadores. Que foram à sua vida, que tinham coisa melhor para fazer ou, tão simplesmente, para a cama. Porque, não o esqueçamos, falo de uma terça e as quartas-feiras costumam ser dias de trabalho. Resta-me a esperança de que a muitos desses 800 mil lhes tenha faltado a paciência – ou, se não fosse ser demasiadamente utópico, que tenham ido ler um livro.
Neste panorama que descrevi, o que me preocupa é que as pessoas prefiram ver o compacto do “Big Brother” em vez de um programa único na Europa, como é o “Acontece”; que prefiram ver o compacto do “Big Brother” em vez de um concurso onde talvez aprendam qualquer coisa, como “O Elo Mais Fraco”; que prefiram ver o directo do “Big Brother” em vez de uma obra de ficção portuguesa, de muito bom nível, como é “O Processo dos Távoras”, ou que, caso tenham alguma coisa contra a produção nacional, não se debrucem então sobre a série “Balzac”. Disse preocupa-me? Deveria ter escrito desgosta-me.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3957 – 16 de novembro, 2012

