José Jorge Letria
Escrita dois dias antes da visita de Angela Merkel a Portugal, ainda com o clamor de indignação e revolta dos militares que saíram à rua a reclamar uma atenção solidária, esta crónica celebra um alemão que jogou em Portugal e que deixou que, em 2009, o negrume e a desesperança o levassem a pôr fim à vida. Chamava-se Roberto Enke, foi um dos melhores guarda-redes mundiais, designadamente na baliza do Benfica, e deixou saudades em todos quantos o conheceram como desportista e como homem. Foi agora traduzida para português uma excelente biografia que o recorda e celebra. Sinceramente, não acredito que a Srª Merkel gere o mesmo sentimento quando terminar o seu ciclo político.
Produto explosivo da mistura de uma rígida educação luterana com as bases do ensino marxista-leninista da ex-RDA, Angela Merkel venceu todos os obstáculos que precisava de vencer para alcançar o poder. Um deles chamava-se Helmut Kohl, um dos últimos grandes políticos europeus, figura central da reunificação alemã, que a teve como protegida e fez dela uma promessa triunfante, acabando por ser deixado pelo caminho. Vinda das áreas da física nuclear e da química, esta política discreta que guardou o apelido do primeiro marido, que não tem filhos e que gosta de futebol e de cozinhar, transformou-se numa das mulheres mais poderosas do mundo. Na realidade, mesmo sem precisar de recorrer ao poderio militar em que assentou duas vezes, no século XX, a vontade de poder de uma Alemanha beligerante, imperialista e destruidora de soberanias, bens e sobretudo de milhões de vidas, a Srª Merkel passeia de forma imponente pelos países intervencionados pelas “troikas” como se fosse a chanceler da Europa e não da Alemanha e como se não existisse Comissão Europeia e governos nacionais, dando notas e brindes aos alunos mais bem comportados.
E é justamente aí que reside o cerne desta crise que nos atormenta. A lógica dos poderes foi totalmente subvertida e vemos um país rico que desencadeou duas guerras mundiais cuja memória ainda não se apagou a ditar as regras que subjugam nações independentes e as podem levar à humilhação e ao colapso. Para a receber, nas suas visitas relâmpago que, só em medidas de segurança, custam mais do que alimentar dezenas de milhares de pessoas e do que assegurar o combustível indispensável para os militares porem os veículos das suas unidades a funcionar, a Srª Merkel encontra governantes obedientes, de olhos no chão, talvez torcendo o boné e olhando para as biqueiras dos sapatos bem engraxados, à espera de receberem nota que lhes permita chegar à oral ou mesmo receber um pão com marmelada e um gelado de baunilha como bónus adicional.
Haverá quem diga que só assim pode agir quem tem dívidas para saldar e quer continuar a ter um lugarzinho nas últimas filas da plateia dos ricos, sempre a tentarem expulsar para o “galinheiro” da sala de espectáculos os parentes pobres e mal vestidos. Hoje é esse o nosso estatuto e é essa a nossa cotação, que nenhuma caridadezinha consegue dissimular, sobretudo quando, exorbitando no discurso e na legitimidade cívica, é “teorizada” em tom de “tia” por quem confunde pacotes de arroz e massa com a salvação de uma pátria.
Robert Enke cansou-se de viver, ele que tinha nos olhos, desde sempre, a sombra de uma tristeza antiga e profunda, e decidiu pôr fim à vida, como hoje faz um número crescente de portugueses, fartos de tanta injustiça social, de tanta humilhação e de tanta privação. Merkel representa o “dossier” dos balancetes, das letras por reformar e da angústia de quem se declara insolvente. Enke representava a humanidade discreta e magoada de quem, mesmo brilhando nos estádios, tinha a alma ferida por inconfessáveis sofrimentos. São pessoas como ele que deixam saudades, por terem sido humanas, afectuosas e dignas, sem serem movidas por nenhum íntimo e incontrolável desejo de poder. Duas Alemanhas, duas formas de sentir e entender a vida, enquanto ainda se ouve em fundo a voz revoltada dos militares cansados da arrogância de quem nos compromete a soberania. E são eles que dizem bem alto, para que não restem dúvidas, de Lisboa a Berlim, passando por Bruxelas, que nunca os braços ficaram cruzados e os espíritos resignados quando a dignidade de uma pátria há séculos livre e independente foi posta em causa.
Crónoca publicada no Jornal de Sintra, ed. n.º 3957 de 16-11-2012

