José Jorge Letria
A Europa está doente e a doença agrava-se de dia para dia. A Europa do trabalho e dos direitos sociais veio para a rua, como aconteceu no dia 14 de Novembro em 23 países, enquanto a Europa dos enquistados interesses financeiros e dos directórios partidários coniventes com as suas manobras tomava medidas e ensaiava cenários para tentar perceber como a situação irá evoluir e como deverá actuar para defender as posições há muito conquistadas. Este impasse é gerador de uma insustentável tensão que se reflecte no estado de espírito do cidadão comum, empurrando-o para a obscuridade de estados depressivos e para um clima de revolta que poderá vir a degenerar em conflitos graves.
No dia 14 de Novembro, a rua foi o cenário da contestação e da indignação de muitas centenas de milhares de pessoas em vários países, incluindo daquelas que, mesmo sem terem sentido ainda a violência das medidas de austeridade, estão revoltadas e, acima de tudo, solidárias com aqueles que já viram o seu nível de vida a degradar-se bruscamente.
Todas as vozes se ergueram, de forma bem audível inequívoca, contra a austeridade, ao ponto de, com indiscutível imaginação, ter havido quem lançasse a ideia de se entregar o Prémio Nobel da Austeridade ao Dr. Durão Barroso que, mesmo subalternizado politicamente pelo protagonismo e poder de decisão continental da sr.ª Merkel, é o rosto mais visível de uma crise da União que ninguém sabe como irá evoluir e muito mesmo terminar.
Os povos empobrecem, a classe média eclipsa-se, os trabalhadores emigram, os autores, os artistas, os polícias e os militares condenam nas ruas as medidas brutais que os afectam e lhes roubam a esperança num futuro de dignidade e paz. Tirando os dois ciclos de guerra mundial, nunca a Europa viveu com tanta angústia, incerteza e medo, para não ter de usar palavras e conceitos ainda mais contundentes.
Ganha uma redobrada oportunidade e actualidade a pergunta formulada pelo sociólogo e filósofo Edgar Morin num livro de 1981, agora reeditado: o mundo para onde vai ? Para onde vai, não sabemos. Mas sabemos como chegou ao ponto dramático em que hoje se encontra. Mas sabemos como foi que esta Europa se deixou envelhecer, embriagada pela sua própria prosperidade, ao ponto de ter tornado insustentável a bela utopia política que foi o projecto comunitário que só uma corajosa opção pelo federalismo conseguirá ainda salvar, como provavelmente defenderiam os seus pais fundadores, caso estivessem ainda vivos.
O Norte, mais rico e de maioritária tradição luterana, acusa agora o Sul de ser ocioso, despesista, devedor compulsivo e irresponsável, esquecendo que a civilização fundadora greco-romana foi uma criação sulista e não nortista e que quem verdadeiramente concretizou o primeiro projecto de globalização foi Portugal com as naus de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Fernão de Magalhães, na mesma altura em que Cristóvão Colombo confundia o que viria a ser o continente americano com a cobiçada Índia das especiarias. Reabrem-se assim feridas antigas que o tempo e a memória colectiva não deixaram cicatrizar.
As grandes revoluções da História foram maioritariamente europeias, excepção feita à Americana e à Chinesa, e foram anunciadas, precedidas e preparadas por obras como “O Contrato Social”, de Jean-Jacques Rousseau, ou como “O Capital”, de Karl Marx. Desta vez não há grandes textos inspiradores ou proféticos. Existe apenas uma amálgama de sentimentos, emoções, revoltas e expectativas que, suportada por um caldo turvo de comunicação digital, pode vir a transformar a chamada “Primavera Árabe” num mero ensaio de teatro de amadores, ainda por cima com a particularidade de aquilo que possa vir a acontecer ter, seguramente, uma forte componente muçulmana, por via dos fluxos migratórios das últimas quatro décadas.
Até pode ser que tudo não passe de um receio pessimista e que a situação se resolva com serenidade, bom senso e apego à paz. O ideal é que assim aconteça, mas ninguém pode garantir que seja esse o caminho e o epílogo. Tudo depende dos estadistas que, na realidade, não existem, dos governos e sobretudo daquilo que insisto em chamar povo e que é a maioria sem rosto e com milhões de rostos que, na hora da verdade, nunca abdica de tomar o seu destino nas mãos.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º. 3958 de 23 de novembro de 2012.

