José Jorge Letria
Há algum tempo que o tema era ventilado, mas teve agora uma amarga confirmação. Os Estados Unidos, em fase de redução de milhares de milhões de dólares nas suas despesas militares, podem condenar ao desemprego cerca de 300 portugueses que trabalham na Base das Lajes, há décadas uma importante estrutura de apoio à Força Aérea Americana, cujas condições foram renegociadas em 1975, ainda com uma revolução em curso em Portugal e os olhos do mundo, pousados como nunca antes tinham estado na evolução política e militar do nosso país.
O ministro Portas já disse que o assunto vai ser analisado e negociado, mas sinceramente não creio que seja exequível levar os Estados Unidos a voltarem atrás numa decisão que já deve estar há algum tempo tomada. Aos pequenos êxitos da chamada “diplomacia económica” vem acrescentar-se agora este desaire para o líder do CDS, a quem a opção radical pela austeridade imposta pela dupla Passos Coelho/Garpar pouco deve agradar, até porque lhe estraga as contas políticas de um futuro acto eleitoral, que pode nem estar tão distante quanto isso.
A situação das Lajes não tem somente a ver com os cortes orçamentais decididos por Washington. Estará sobretudo relacionada com as mudanças operadas nas opções geo-estratégicas do executivo do reeleito Barack Obama que, embora apoiado e aplaudido pela maioria dos europeus, é dos presidentes norte-americanos com menos afinidades com a Europa. É bom não esquecer que cresceu na Indonésia e no Hawai. Conhecendo bem a evolução do mundo nas duas últimas décadas, Obama está muito mais virado para a Ásia que cerca a República Popular da China, para África e para a América Latina. Entretanto, a Europa envelheceu, perdeu importância militar, económica e política e deixou de ser uma peça fundamental para a mais poderosa potência mundial, que está ciente de que é noutro tabuleiro que as grandes mudanças se irão operar a partir de agora.
Depois da queda do Muro de Berlim, mesmo com a Rússia dos novos-ricos do capitalismo de fresca data a marcar pontos, não voltará a haver heróicos desembarques na Normandia, nem partes do continente para serem controladas com base em preferências ou maiorias ideológicas. Esse tempo passou de vez.
A Europa de hoje, mesmo com mais de 500 milhões de habitantes e com uma geração jovem tornada genuinamente europeia pelo programa Erasmo, é, cada vez, uma bela envelhecida e adormecida, que não soube, não quis transformar o gigante económico que já era num gigante político e militar que só o federalismo teria tornado possível. Com grandes bolsas de imigração islâmica, com enormes conflitos sociais e com uma taxa de natalidade confrangedoramente baixa, a Europa, a que me orgulho de pertencer, a Europa de Shakespeare, Camões, Cervantes, Strindberg, Mozart, Verdi, Nitetzsche, Ibsen, Pisasso ou Turner, tende a ser cada vez mais um imenso e deslumbrante museu ainda vivo, enquanto a China do legado de Mao ameaça tornar-se a maior economia do mundo, com todos os perigos militares que daí poderão advir.
É com este mundo que já não depende do Mediterrâneo e do Atlântico que os Estados Unidos estão cada vez menos preocupados, por serem a retaguarda segura que não lhe rouba o sono. E é com esta desconsoladora realidade que teremos de viver e coabitar nas próximas décadas, enquanto deitamos contas à vida a ver se a Europa consegue ultrapassar, sem nenhuma grande tragédia, as tensões e conflitos que neste momento lhe fazem estremecer os alicerces. Refiro-me a uma Europa com uma Comissão Europeia cada vez com menos poderes e com uma estrutura burocrática e administrativa insustentavelmente pesada e cara. Falo também uma Alemanha cada vez mais ciosa do poder que a sua supremacia económica lhe confere, apesar de ser um país muito menos autónomo do que se possa imaginar. E foi justamente essa falta de autonomia que a levou duas vezes, no século XX, a mergulhar o mundo numa imensa hecatombe, tendo a Base das Lajes, mesmo com Salazar, ter ficado do lado certo da História.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3959 de 30 de Novembro de 2012

