Coisas altamente improváveis
Bernardo de Brito e Cunha
COMO SABEMOS há coisas que nunca imaginamos ser possível ver num dos canais de televisão em particular, mais umas coisas num deles, outras coisas noutro qualquer. Por exemplo: é impossível esperar ver o Rouxinol Faduncho na RTP2 – apesar do muito apreço que os dois me merecem, pelo menos enquanto ele e ela se mantiverem com os perfis que hoje apresentam – tal como é pouco provável que a TVI nos venha a dar, uma noite destas, uma noite de ópera. É mais ou menos aquilo a que a linguagem popular se refere como “cada macaco no seu galho”. Mais ou menos isto. Ora a primeira coisa improvável desta semana é a permanência de “Os Homens da Luta”, pela terceira semana consecutiva e se não me falham as contas, no canal do Dr Balsemão. Se isto já era coisa digna de nota, acrescente-se-lhe o facto de o programa passar ao sábado e em horário nobre – em detrimento do acima mencionado Rouxinol, que tem que se contentar com a tarde de sábado. Vão-me dizer: “Está cada vez pior, este tipo: já nem se lembra que os Homens da Luta se “fizeram” na SIC Radical!” Não, não esqueci: mas uma coisa é passar na Radical e outra muito diferente é passar na mãe de todas as SICs. E vão para lá incitar à luta (por alguma coisa o programa se chama “Sábado à Luta”) e dizer muito mal do governo, o que não espanta, que o Dr Balsemão também vai dizendo o seu bocado. E fazem coisas com graça, como seja aquela de apanharem uma frase de um governante e introduzirem-lhe modulações melódicas até quase a transformarem num estribilho de canção. Os convidados geralmente são bons (o último foi Tim[óteo], como eles o trataram, dos Xutos & Pontapés) e a única coisa sem a qual se passava lindamente, era a rubrica final de Rui Zink. Ninguém é perfeito.
SEGUNDA SURPRESA da semana: depois da loucura (saudável, mas loucura mesmo assim, para um canal público) de congeminar e levar até ao fim uma coisa como “O Último a Sair”, Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington têm nova ideia peregrina – chama-se “Odisseia” – e a RTP, que não atravessa um dos seus melhores momentos, embarca no projeto. E quando escrevo “embarca” sei que serei mal compreendido, embora não seja essa a minha intenção. A coisa é de tal modo que, naquela “odisseia” pelo país, irá mesmo surgir Nuno Lopes e Daniela Ruah… O primeiro episódio, que passou domingo, teve uma coisa notável (ou então sonhei): a recriação de um momento de um filme de Pedro Almodóvar, “Fala com Ela”, em que Caetano Veloso interpreta “Cucurucucu Paloma”. A voz, neste episódio de “Odisseia”, era de Caetano Veloso: tudo o resto – e era igualzinho – foi feito com a genialidade daqueles atores e técnicos. Um espanto.
UMA SUGESTÃO: José Rodrigues dos Santos e Rodrigo Guedes de Carvalho podiam ser uma das contratações do ano e uma dupla de pivots para fazer inveja às outras estações, mas não é bem isso. Trata-se do novo programa “Quem Diria”, que a SIC Notícias estreia no próximo sábado, dia 26 de Janeiro, pelas 23h. O programa surge na sequência do “Conversas Improváveis”, e Anselmo Crespo e Bernardo Ferrão voltam, em 2013, com uma evolução daquele programa, que mantém o formato de dois convidados que nunca ou quase nunca foram vistos juntos em televisão. “Quem Diria” é um programa mensal, vai para o ar sempre no último sábado de cada mês, às 23h, na SIC Notícias. A SIC antecipa o programa, no Jornal da Noite desse dia, com os melhores momentos.
TAMBÉM SÍLVIA ABERTO me apareceu de novo, com um programa que tem nome de sigla, “NMSDC” e que faz as vezes de “Não me Sai da Cabeça”. Se neste programa teve a sorte de ir buscar “A Minha Casinha”, de Milú e dos Xutos, não sei se terá muito mais sorte na próxima tentativa. Mas talvez ela me surpreenda – que foi coisa que nunca fez…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Que tivemos nós na última semana, no “Bombástico” da TVI? Montes de coisas. Começámos com a história de uma mãe que abandonou os filhos (“mas que raio de mãe é esta?”, perguntava José Carlos Soares) e as crianças foram retiradas pelo tribunal ao pai, Paulo Amado, sem sequer lhe darem conhecimento. O programa, pela calada, fez com que o pai visse as crianças, momento esse que foi mostrado em vídeo. Sempre que passa alguma coisa gravada, José Carlos Soares desata aos gritos de “Pára! Pára!” para se poder ver um pormenor qualquer. No caso de Paulo Amaro, o grito foi de “Pára! Esta é a emoção de um pai!”, a que se seguiu a exclamação “o tribunal foi cruel!!!”. E depois, com um pequeno à parte para a câmara: “Estou a falar nisto e estou arrepiado!!! Se isto não é um escândalo, então peço que me digam o que é um escândalo: colocarem um filho a 100 km do pai, por ordem do tribunal…” E vai por ali fora: “Isto é um espanto! Estou espantado com a lei…” E, com algumas lágrimas na cara, outra confissão: “Eu pareço um maricas, para aqui a chorar…” Para depois rematar com o famoso “A mim ninguém me cala! Se hoje me calei um bocadinho, foi para proteger as crianças…”»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3965 de 25 de Janeiro de 2013

