Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 9th 2026

O TEMPO DOS IMPOSTORES: OS “CIRCENSES” E OS OUTROS SEM PERDÃO

José Jorge Letria

Agitou-se o nosso já agitado universo mediático com o aparecimento meteórico de um impostor que parecia trazer consigo, legitimado por títulos, teses e vasta experiência académica e institucional, as soluções para Portugal superar com êxito a crise que nos vai consumindo e empurrando para o abismo.
Saído sabe-se lá de onde, mas também, seguramente, de experiências prisionais, o impostor teve as portas franqueadas para dar entrevistas a jornais e televisões, para fazer conferências e participar em debates, convertendo-se numa verdadeira “estrela” do debate público sobre as misérias nacionais. Não se sabia ao certo que ganho material ele pretendia auferir, mas algum com o tempo havia de ser, pois coisas destas costumam ser sempre investimento e, por isso, não se fazem “à borla”.
Depois tudo acabou por se descobrir, o homem não fora secretário de Estado, nem consultor internacional, nem académico no estrangeiro, nem quadro da ONU. Como certo tinha-se apenas que cumpriu uma pena de prisão por ter atropelado mortalmente uma mulher, numa localidade do Alentejo, onde já tinha sido responsável por outro atropelamento. Fica assim claro que, mesmo que impostor se tenha conduzido bem neste embuste, será tudo menos um condutor aceitável. Talvez por isso tenha tentado ascender a um cargo que lhe desse direito a ter motorista. Nunca se sabe o que vai na cabeça de pessoas assim.
O certo é que o tempo das grandes crises estruturais é o ideal para o aparecimento dos grandes impostores. Durante a ocupação filipina de Portugal, entre 1580 e 1640, houve três falsíssimos D. Sebastião, um dos quais, o da Ericeira, acabou por ser detido, decapitado e esquartejado pelos espanhóis em fúria com este acto de insubordinação de um eremita que se convenceu e todos quis convencer de que era o rei regressado de Alcácer-Quibir.
O impostor actual não disse vir do Norte de África mas sim dos corredores da ONU, com uma bagagem curricular de pôr em sentido qualquer entrevistador. O pior é que era mentira, pura falsidade. Agora discute-se se deverá haver moldura penal para este embuste, já que o homem parece não ter obtido ganhos materiais com a impostura. Esse é um assunto para a justiça e não para os “media”.
Pelo contrário, a todos continua a dizer respeito o destino, também na esfera penal, a ser dado aos impostores, aos embusteiros e aos vigaristas que lançaram Portugal no atoleiro em que se encontra com casos como o do PBN e que permanecem impunes, enquanto os Portugueses cobrem os milhares de milhões de euros em que eles defraudaram o país e os contribuintes. Para eles não pode haver perdão, até porque vários foram governantes com grandes responsabilidades.
Enquanto estes crimes se mantiverem impunes, muitos impostores poderão ainda tentar aparecer dando palpites no espaço mediático, mas não serão mais que tristes números de circo, num Portugal colocado na arena da sua desgraça nacional pelas “feras” que a justiça ainda não conseguiu colocar na jaula da merecida punição por um longo e exemplar período.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3964 de 18 de janeiro de 2013

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