Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 9th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

O homem que afinal não é o autor da carta

Bernardo de Brito e Cunha

COMO NÃO POSSO passar as semanas a falar de “Avenida Brasil” (embora desista disso a contragosto) falemos de Franquelim Alves. Vi-o na entrevista feita por Vítor Gonçalves no programa “De Caras”, programa que se anuncia de “entrevistas sem rodeios nem meias palavras” e que também se vangloria de fazer qualquer coisa como “todas as perguntas por uma boa resposta”. Não é bem verdade: Vítor Gonçalves tem sido do mais subserviente que se tem visto – e não sei dizer com precisão se isso só aconteceu depois de ter sido promovido a subdiretor de informação. Feito este parêntesis, voltemos a Franquelim Alves. Não o conheço, mas não lhe acho boa cara. Não no sentido de adoentado, apoquentado por alguma maleita, mas no outro, no de ter uma cara que não me inspira confiança. O homem até pode ser honestíssimo (ou aceitavelmente correto) mas… não lhe vou com a cara. Independentemente disso, não lhe vou declaradamente com o nome próprio, assim aportuguesado. Como se sabe existe uma lista dos nomes que são admitidos para registo de uma criança: essa lista do Instituto dos Registos e do Notariado – atualizada em 31 de dezembro de 2012 – regista três grafias para o nome: Franclim, Franklim e, finalmente, Franklin. Quem lhe pôs o nome queria mesmo que não o esquecêssemos…

DA ENTREVISTA a Vítor Gonçalves sobressaiu fundamentalmente uma coisa: que o currículo fornecido parecia estar mais ou menos completo, com exceção de um emprego aos 16 anos… O que aconteceu a seguir é que foi a asneirada da grossa. Do corte no seu currículo (por alguém do governo) da passagem pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN), antiga dona do BPN, à defesa que o Governo, o restante Governo, fez dele foi um desastre: o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira (que na altura dos acontecimentos vivia no Canadá…) foi para o Parlamento garantir que Franquelim Alves não tinha sido um malfeitor e pouco lhe ter faltado para o converter num herói. Ora vamos lá com calma: na intervenção que vi Álvaro Santos Pereira fazer em sua defesa, o ministro só não disse que Franquelim/Franklin/Franclim tinha denunciado toda a gente do BPN e que ninguém o tinha levado a sério. E ainda foi arranjar a história da carta, que afundou mais do que ajudou… O governante, que falava na Comissão de Segurança Social e Trabalho, citou uma carta de 2 de Junho de 2008, afirmando que, nessa missiva, Franquelim Alves tinha denunciado as irregularidades no grupo, nomeadamente as ligações ao Banco Insular, de Cabo Verde. Mas a verdade é que a carta não é de Franquelim Alves e sim de todo o conselho de administração da SLN. E mais ainda: a carta era uma resposta a um pedido de esclarecimentos do Banco de Portugal, na sequência de uma denúncia anónima. E o pior: à data, a administração da SLN já conhecia o Insular há três meses.

MAS COMO ESTA GENTE não se sabe calar a tempo, eis que ainda entra em cena o ministro-adjunto: Miguel Relvas quis avalizar Franquelim Alves, mas convenhamos que só pode avalizar quem tem crédito para avalizar. Ora acontece que Miguel Relvas é a pessoa com menos crédito no Governo para avalizar qualquer coisa política, é a pessoa que está mais politicamente desgastada no Governo. Como já se percebeu há muito, sempre que Miguel Relvas vem avalizar uma pessoa, isso significa que Miguel Relvas vai enterrar alguém e essa pessoa bem pode começar a rezar. Será possível que num governo inteiro não haja ninguém que tenha percebido que quando se tratar de defender alguém é de evitar que seja Miguel Relvas?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«As coisas não começaram da melhor maneira para Catarina Furtado e para a sua “Operação Triunfo”. Para já, porque não começaram na data marcada e isso, em televisão, é das piores coisas que pode existir. O programa devia ter começado dia 9 – era o que estava programado. Com ele, no mesmíssimo dia, estrearia a nova telenovela portuguesa, “Lusitana Paixão”. Pois nem uma coisa, nem a outra. Catarina Furtado e a “Operação Triunfo” arrancaram no dia 7, num programa que as promoções diziam em directo de Barcelona – mas a palavra “directo” não constava no ecrã, como é normal, por debaixo do logotipo da RTP. E depois, o mesmíssimo programa, foi repetido na tarde de dia 9, domingo. Podem dizer-me que isto não tem importância nenhuma: mas a RTP sabe que tem. Porque conforme Catarina Furtado repetiu várias vezes ao longo do programa e respectiva repetição, o programa “Operação Triunfo” só arrancará oficialmente esta semana, no domingo, dia 16, o que fará com que perca o sentido de oportunidade e antecipação e acabe por estrear no mesmo dia que a “Academia de Estrelas” da TVI.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3968 de 15-2-2013

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