Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

A semana em que a MEO até bateu palmas

Bernardo de Brito e Cunha

NÃO DÁ PARA ACREDITAR. O Canal Q, que transitou da Meo para a Zon, é uma coisa indescritível. Bastaram menos de 24 horas para perceber a indigência de tudo aquilo. Não por dizer que é um canal de humor e não ser, mas porque se faz passar por um canal sem meios – e ser mesmo! Já disse que era uma coisa indigente? Já, mas repito: é in-di-gen-te mas ao cubo! É inenarrável. Mas inenarrável ao ponto de ter passado aqui uma tarde em frente ao televisor – e de ter passado pelas brasas, tal era a excitação da coisa. Não tenho palavras para descrever a coisa: a graça não está lá, os textos (excluindo alguns da rubrica ”Inferno”) são de ir às lágrimas e já me ri mais ao ver a mira técnica de qualquer canal. É por isso que a MEO deve estar a esfregar as mãos de contente por ter conseguido passar esta estucha para a ZON – e, muito provavelmente, nem sequer lhe agradeceu o frete. Mas eles acabam por ser todos parentes, portanto… E nem vos digo qual a posição, que é para não cederem à tentação. Esqueçam.

A RTP ESTREOU a série “Vermelho Brasil”, baseada no livro homónimo do escritor francês Jean-Christophe Rufin, que conta a história da expedição de Nicolas Durand de Villegaignon ao Brasil por volta dos anos 1550 e a sua luta para criar uma colónia, a chamada França Antártica, no Brasil conquistado pelos portugueses. Como pano de fundo, as batalhas com Portugal, a história da fundação do Rio de Janeiro e a formação da identidade brasileira no primeiro século da colonização. O local escolhido por Villegaignon para sua aventura nos trópicos foi um trecho da costa inicialmente ignorado pelos portugueses: a até então virgem e selvagem Baía de Guanabara. A tentativa de conquista pelos franceses desse “éden terrestre” serviu como pontapé inicial para um maior empenhamento dos portugueses na ocupação das terras que haviam descoberto. Assim, de uma pequena fortaleza de madeira construída para combater os invasores – e que tinha como sede de armas uma ilha que ainda hoje ostenta o nome de Villegaignon , nasceu a cidade do Rio de Janeiro. O projeto “Vermelho Brasil” conta esta história pelo ponto de vista de duas crianças, Just e Colombe, órfãos levados na expedição para serem treinados como intérpretes na relação com os “selvagens” nativos. A não perder, para quem seja capaz de resistir às tentações de “Vale Tudo” ou “A Tua Cara Não Me É Estranha”, respetivamente na SIC e TVI a horas muito semelhantes.

LAMENTEI SABER que o programa “O Formigueiro” tivesse sido retirado da antena da SIC, depois de ter sofrido uma alteração de horário. Não pelo programa, que me pareceu mais uma parvoíce à la SIC – como o poderia muito bem ter sido à la TVI – mas porque Marco Horácio, que já deu provas noutros programas e noutros registos, não o merecia. Teve, como muitos de nós, de aceitar um trabalho que não era a sua cara mas que, nos tempos que correm, é coisa que não se pode recusar. Espero que tenha melhor sorte no seu próximo projeto e, sobretudo, que este lhe surja rapidamente.

HOUVE MAIS UMA MANIFESTAÇÃO, com um número indeterminado de intervenientes: tal como nas greves, uns dizem oito e outros 80. Até agora, nenhuma reação do governo de que, de resto, se pedia a demissão. E, fossem 8 ou 80 – fosse mesmo um só o descontente – isto deveria significar alguma coisa. Para o nosso governo não: aparentemente, para ele, os oito, 80 ou 800 mil foram apenas ao Terreiro do Paço fazer um piquenique. Porque o tempo estava convidativo e o convívio entre as gentes é uma coisa de aplaudir. Está mal habituado, este nosso governo: mas um dia destes é capaz de ter uma surpresa. Nunca se sabe até quando um povo ordeiro – “o melhor povo do mundo”, de resto – conseguirá manter a cabeça fria.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A transferência de Manuel Luís Goucha para as manhãs da TVI não tem sido frutuosa. É que se conseguiu aumentar a audiência matinal da TVI, a verdade é que não conseguiu mais do que ser o menos visto das manhãs. Daí a promover-se efusivamente durante os intervalos regulares da programação, foi um passo. Mas ele, já o sabemos, há promoções e há promoções: e Manuel Luís Goucha, que é um profissional de respeito e respeitado, tem feito de tudo para promover o seu programa. Não sei se a ideia terá sido dele ou se terá sido outro a tê-la, em Queluz, por ele: a verdade é que ele aceitou fazê-la (e não parece, pelo tom, que tenha sido sob protesto) o que o torna, pelo menos conivente. E, meu Deus!, para se promover um programa que se pretende alegre, é preciso fazer-se papel de bêbedo? A Manuel Luís Goucha só lhe falta fazer o pino (será que já o fez e eu não vi?) para promover o seu “Bom Dia Portugal”. O problema é que Goucha é um profissional que nos habituámos a respeitar, ao longo dos anos: se mudou para a TVI para que percamos essa ideia, então o melhor teria sido continuar numa RTP incerta. Mas aí, ao menos, o seu trabalho não tinha mácula.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3971 de 8 de Março de 2013

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