Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 28th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

“Equador” quatro anos depois

Bernardo de Brito e Cunha

NA SEMANA que passou – e para voltar a um tema já aflorado – vi duas transmissões de jogos de futebol. Internacionais, claro está, que campeonato nacional nem vê-lo, como também já aqui foi referido. Eram partidas internacionais, já o disse, mas que tiveram transmissão por canais portugueses. O Manchester contra o Real Madrid foi transmitido pela TVI, ao passo que Benfica contra o Bordéus foi exibido pela SIC. Não houve comparação entre comentadores: os da TVI, talvez por não serem os do costume e contarem entre o grupo com Pedro Ribeiro, homem da rádio mas, para o caso, a contar mais a sua inteligência constituiu quase uma afronta para a equipa de comentaristas do outro canal. É que só ouvindo é que dava para perceber… Pedro Ribeiro fez dos seus comentários uma coisa com graça e apartes apropriados, o que seria impensável em Nuno Luz, da SIC. Que nem deve imaginar o que a palavra significa…

A TVI TEM esse hábito terrível que é falar na sua “produção nacional”. E é terrível porque, quando o faz, se refere quase exclusivamente às suas novelas. E estas, mau grado o Emmy que uma delas conquistou, são geralmente más. Acontece que, em 2009, a TVI adaptou “Equador” numa série de 26 episódios. E isso merece destaque. Em primeiro lugar porque se trata de uma série de época, com tudo o que isso envolve em termos de custos; depois, porque a história implicou que as rodagens dos 26 episódios se alargassem por seis meses; mais ainda, que essas rodagens se espalhassem por quatro zonas de outros tantos continentes – Portugal, Índia, Brasil e São Tomé e Príncipe – e, se somarmos todas estas componentes, a que acrescentaremos centenas de técnicos e actores, para não falar em figurantes, chegaremos a uma quantia final que não deve ter sido pequena. E, estando tanto dinheiro em jogo, de certeza que a TVI deveria querer publicitá-la e, posteriormente, fazer os possíveis para que “Equador” fosse premiado.

QUANTO À PRIMEIRA PARTE, a TVI publicitou a série quando a exibiu, em 2009. E depois… parece tê-la esquecido. A série resultante do livro de Miguel Sousa Tavares não deixa de conter todos os elementos que encontramos numa novela: ele são amores contrariados, ele são romances proibidos, ele são encontros e desencontros em que as nossas vidas (mas principalmente as novelas) são férteis, ele são dívidas de jogo que acabam mal, dando origem a mais romances proibidos… Até aqui, portanto, nada de muito diferente da trama de uma novela: e “Equador”, tivesse esta série uns 150 episódios e não apenas 26, seria uma novela. Mas não esqueçamos essa operação aritmética fundamental que faz com que os milhões dos custos totais sejam apenas a dividir por 26, tornando cada um dos episódios cinco ou seis vezes mais caros, porque houve um cuidado muito especial naquela produção. Sendo assim, não teria sido normal que a TVI – para além de a ter lançado em DVD – tivesse investido mais nela, em termos de repetição? Confesso que esperei vê-la no recém estreado “+TVI”, mas nada: e só desde a última segunda-feira (quatro anos depois) ela foi reposta na TVI – e à meia-noite. A julgar pela reestreia, em que foram exibidos dois episódios que se arrastaram até às duas da manhã, dentro de duas semanas a série volta para os arquivos…

E A SÉRIE conta, de resto, com uma esmagadora maioria de actores portugueses. E esta mesma história, que foi trabalhada por Rui Vilhena e pela sua equipa de guionistas, fez um trabalho ao nível do que Rui Vilhena já nos habituou. Isto é: os diálogos não são da treta e o resultado final não achincalha o romance de Sousa Tavares. Não se percebe esta economia da TVI, sobretudo pelas repetições que faz de outros produtos que estão diametralmente opostos a este, em termos de qualidade.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Eu não sou propriamente dado a seguir na televisão os diversos sorteios e lotarias. Mas como os tempos já não são o que eram, um dia destes lá vi uma dessas coisas que, para além de extrair números de lotaria, números de totoloto e possivelmente ainda tira cafés, também tem uma coisa que é a roda da sorte – ou algo com nome semelhante. Uma coisa que Jorge Gabriel já manejou nos seus tempos da SIC, não sei se estão recordados. A diferença é que Jorge Gabriel é ele mesmo e agora, na RTP 1, temos ao leme da roda (não deveria ser a roda do leme? Adiante.) a estonteante figura de Serenella Andrade. É verdade que a jovem não parece talhada se não para isto de dar coisas: e não fosse o paizinho, de seu nome Luís Andrade, ter subido ao cargo de director de programas e sabe-se lá quem estaria a apresentar agora aquele espaço… Uma pessoa com mais talento não deve ser difícil de encontrar, e se formos falar de encanto e alegria esfusiante, então, caramba!, qualquer pessoa nos serviria melhor aquele prato frio e um pouco deprimente.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3972 de 15 de Março de 2013

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