Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Pior é impossível. Mesmo!

Bernardo de Brito e Cunha

ISTO QUANDO não há vergonha, está tudo perdido. Na novela “Dancin’ Days”, que a SIC transmite diariamente e que é, além do mais, a mais vista de todas as novelas da noite, há três episódios que assistimos à personagem Gui a descobrir a criada da mãe morta na piscina desta última. Há três noites que ele regressa àquela casa, há três noites que ele se farta de chamar pela “Lurdes! Lurdes!” e esta nada. É verdade que ela está calmamente a boiar na piscina, mas não se compreende tal silêncio… A criadagem, definitivamente, já não é o que era: e a SIC, por este caminho, ou voltou ao vale tudo – será mais correto dizer que nunca saiu de lá? , ou anda com as VTs todas baralhadas… Mas a verdade é que a SIC já tinha ameaçado fazer uma coisa destas: não trocar episódios ou repeti-los, mas por a sua novela de maior sucesso a passar ao fim-de-semana, altura em que perdia para a TVI. Apesar deste “episódio especial”, como a SIC lhe chamou, a verdade é que a combinação da estreia de uma nova novela com a final de “A Tua Cara Não Me É Estranha 3”, ambas na TVI, acabou por estragar a estratégia da SIC. No domingo, de certeza que já não vai repetir a graça, porque na TVI estreia o “Big Brother VIP”… E eu, desde já vos aviso, não tenciono escrever aqui uma linha a respeito desse programa: já toda a gente lhe deu importância de mais.

ESCREVI, NUM OUTRO lugar, que precisava de comprar uma agenda/calendário, para não me perder com os comentaristas políticos das televisões e com os respetivos canais. Parece-me natural: com a crise, a troika, o descontentamento popular com o governo (sem esquecer a insatisfação do governo para com o próprio governo), todo o momento que vivemos pede comentários. Daí que apareçam os comentaristas. E, grosso modo, não há nenhum que não tenha qualquer coisa a apontar ao governo: ele é Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Pacheco Pereira e, naturalmente, José Sócrates.

ÀS QUARTAS, julgo eu (ainda não comprei a tal agenda), surgiu Manuela Ferreira Leite. Não gosto muito dela, porque a acho feiinha e opto sempre pela opinião de Vinícius quando dizia que “beleza é fundamental”, e não gostei dela enquanto governante. Reconheço, no entanto, que a senhora não é burra. E viu-se isso no “Política Mesmo”, na TVI24. Tanta gente a dizer mal do governo poderia ser uma óptima oportunidade para a esquerda, se esta decidisse organizar-se – coisa que não parece muito disposta a fazer… E assim se perdem as oportunidades.

MANUEL FERREIRA LEITE acusou quarta-feira o Governo de estar a dramatizar e a teatralizar sobre a decisão do Tribunal Constitucional que não vai levar a lugar nenhum, considerando mesmo que os cortes anunciados pelo Executivo “não vão ser cumpridos, nem são exequíveis”. A antiga presidente do PSD disse ter pensado que “tinha saído a sorte grande ao Governo” com a decisão do TC de considerar inconstitucionais algumas das medidas do Orçamento do Estado para 2013, uma vez que era uma oportunidade para mudar de políticas “sem ninguém perder a face”, mas reconheceu que se enganou porque o Governo insiste na política de austeridade. E disse mais: que o país está a entrar “numa fase de privação, abaixo da pobreza, em que as pessoas já não se conseguem alimentar” e lamenta que o Governo faça uma dramatização “que não vai levar a lugar nenhum”. E rematou com um “o Partido Social Democrata sempre colocou em primeiro lugar o primado da pessoa”. Ser pior do que isto para Passos Coelho, nem José Sócrates.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Imagine-se, por exemplo, uma notícia sobre o lixo que se acumula na urbanização da Barôta, junto à estrada do mesmo nome, algures em Massamá Norte, concelho de Sintra. Onde é que esta notícia poderia ter, de tão circunscrita a uma zona, cabimento e destaque? No “Telejornal”? Não, que não é que não seja importante, mas é demasiado local – não-nacional, por assim dizer. Então, se essa notícia – que alerta, de resto, para a circunstância de não existir oficialmente tal coisa como “Massamá Norte” e de não se saber se aquela urbanização se situa na freguesia de Belas ou de Queluz – se essa notícia, escrevia, vier ao lado (ou antes ou depois) de uma outra que dá conta de que as obras de recuperação do bairro do Castelo, em Lisboa, estão paradas há anos, por falta de pagamentos por parte da câmara à empresa que as levava a cabo (…) tudo isto, embora feito de outra maneira, existe e sem ter de recorrer a essa miríade de estações de televisão de norte a sul do país. Isso existe, tem um nome e, espanto dos espantos, é efectivamente um programa de televisão. O seu nome é “Regiões” e é transmitido diariamente no canal 1 da RTP, logo a seguir ao “Jornal da Tarde”.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3977 de 19 de Abril de 2013

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