Programas a evitar a todo o custo
Bernardo de Brito e Cunha
FERNANDA SERRANO escreveu um livro. Não sei se é bom ou mau, porque não o li. Sei, no entanto, que se trata de um livro que relata um caso clínico muito grave, uma gravidez que técnica e clinicamente não deveria ter acontecido, e dois casos de negligência médica. Parece-me que é isto, julgo eu, que não li o livro, repito. Fernanda Serrano é uma pessoa por quem não nutro particular simpatia como atriz. Então, perguntarão aqueles que fazem o favor de me ler, se não li o livro e não sou fã da atriz, como diabo sei eu estes pormenores desta sua edição em livro? Pormenores esses que, mais coisa menos coisa, se aplicam (infelizmente, de resto) a muitos outros casos neste país. Como é que sei estes pormenores? Porque a TVI lhe fez o favor de publicitar o caso, a história de vida e, consequentemente, o livro. E a minha pergunta, muito simples, é esta: não fosse Fernanda Serrano uma atriz do universo TVI e as portas da estação ter-se-iam igualmente aberto para ela? Confesso que tenho dúvidas: porque se assim fosse, a TVI não faria outra coisa que não fosse dar voz a todos os outros casos mais ou menos semelhantes que, infelizmente, grassam por este país. E não me refiro apenas ao programa de Fátima Lopes e ao ar pungente com que acolhe situações semelhantes, mas a muitos outros programas possíveis. E espanta-me até, de resto, não ter visto Fernanda no programa de Fátima: mas ainda não perdi a esperança. Ou, caramba!, será que me escapou?
NÃO QUERO, de forma alguma, tirar o emprego às pessoas que fazem a dobragem de filmes ou séries: mas continuo a defender a legendagem, mesmo nas séries juvenis, porque essa pode ser a única maneira que um jovem terá de ler e, como parece ser dado adquirido, de conviver com o novo acordo ortográfico. Mas é o que acontece na SIC com a série “Max, o Cão Polícia” que todos recordamos ser falada em alemão. Fica melhor, dobrada em português? Será menos agreste, pelo menos para nós… mas pode ser que haja quem queira desenferrujar o germânico e uma legendinha cai sempre bem.
JURO QUE NÃO SEI onde foi a RTP desencantar a novela que passa a seguir ao “Jornal da Tarde”, de seu nome “Windeck – O Preço da Ambição” e que mostra o que as pessoas são capazes de fazer para atingir uma riqueza fácil e rápida. Quando jurei que não sabia estava obviamente a mentir: foi a Angola. E deve fazer parte de um qualquer intercâmbio de que nem quero saber os meandros. Vi os primeiros dois episódios e fartei-me de rir com aquela história “emocionante” e com uma representação (?) tão convincente, passada em Luanda, que revela os golpes daqueles que não medem esforços para alcançar os seus fins. Centra-se principalmente no dia-a-dia da redação da revista Divo, um local onde o glamour se mistura com a ambição – ou coisa que se pareça com isto.
O grande problema é Vitória, uma mulher sensual que vem do Moxico e é capaz de tudo para subir na vida. Em Luanda vai viver para casa da irmã, Ana Maria, que é fotógrafa na Divo e muito diferente dela: é honesta e trabalhadora, tem uma vida sossegada, até ao dia em que Vitória aparece. Para esta mulher ambiciosa, tudo não passa de um jogo de interesses para conseguir riqueza e poder. O seu alvo foi escolhido de imediato: o filho do dono da Divo, Kiluanji, jovem rico e honesto que Vitória quer conquistar para enriquecer. Não neguem à partida uma novela que desconhecem: vejam ao menos um episódio, que a diversão é garantida.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Rodrigo Guedes de Carvalho (…) levou até ao “Jornal” um jovem que dá pelo nome de Bruno Ferreira e que é, por assim dizer, o “manda chuva” das vozes que fazem o “Contra Informação” que, como se sabe, é um programa da concorrência. Não é vulgar esta coisa de chamar até ao nosso jornal pessoas que trabalham para estações concorrentes. E depois de falar sobre esta coisa da voz com Bruno Ferreira e de fazer as perguntas do costume (“como é que descobriu esta capacidade” e por aí fora), foi mais longe: e pediu-lhe que fizesse ali, ao vivo, em directo e a cores, algumas imitações de pessoas conhecidas. E, com toda a facilidade, desfilaram pelo “Jornal da Noite” em intervenções necessariamente curtas, as vozes de Miguel Sousa Tavares, de Paulo Portas, eu sei lá. Até ao momento em que Rodrigo Guedes de Carvalho fez uma coisa assombrosa. Estarão recordados que na última semana fiz aqui referência à campanha ignóbil que a promoção da SIC andava a mover contra a RTP e a sua informação: pois não é que, às tantas, Rodrigo faz publicamente o elogio de Carlos Fino, da RTP, da concorrência, de olhos nos olhos no telespectador? E depois, claro, pediu a Bruno Ferreira que imitasse o enviado da RTP a Bagdad – o que este fez na perfeição, a ponto de quase levar Rodrigo a desmanchar-se em riso.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada na edição n.º 3978 de 26 de Abril 2013

