Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

DO ADVERTÊNCIA DE THOMAS MANN AO PERIGO DE “UMA EUROPA ALEMÃ

José Jorge Letria

No livro “A Condição Humana”, editado em Portugal em 1991 e com edição original de 1985, o sociólogo e filósofo Norbert Elias escrevia: “A luta pela hegemonia perdida da Alemanha foi, tanto quanto é dado ver, a última tentativa de um Estado europeu para conquistar a supremacia na Europa. A Alemanha foi a grande derrotada dessa guerra, mas não a única. Também a França e a Inglaterra, nominalmente vencedoras da Segunda Guerra Mundial, pertencem, de facto, aos Estados que perderam. Os verdadeiros vencedores foram a União Soviética e os Estados Unidos. Ambas estas potências passaram, no fim da guerra, para o vértice da hierarquia dos Estados não só da Europa mas do mundo inteiro”.
Depois de Norbert Elias ter produzido esta reflexão muita coisa mudou na Europa e no mundo. Caiu o Muro de Berlim em 1989 e seguir implodiu o bloco soviético, com a emergência de novos Estados livres da tutela político-militar de Moscovo, a dupla Reagan-Thatcher fez triunfar o modelo ultraliberal que levou o capitalismo a sentir-se senhor absoluto do mundo, numa perigosa lógica unipolar, a União Europeia ascendeu aos píncaros da prosperidade e da autoconfiança antes de iniciar o ciclo do seu próprio declínio, eclodiu a crise de 2008 nos Estados Unidos, a Europa entrou em recessão profunda, os países de economias mais fracas ficaram sujeitos aos “diktats” de Bruxelas e depois apenas de Berlim e assistiu-se ao inevitável regresso da Alemanha derrotada em 1945 a um perigoso estatuto de hegemonia que poderá vir a lançar o continente numa preocupante situação de conflito e de ruptura.
De países como Espanha, Itália, Portugal, Grécia ou Irlanda deverá dizer-se, seguindo as regras do mais elementar bom senso, que não há nada mais desaconselhável do que humilhar povos e pátrias soberanos. Houve esse cuidado com a Alemanha derrotada, grande responsável por um conflito mundial que custou mais de 60 milhões de vidas, das quais 20 milhões foram sacrificadas na então União Soviética. O plano Marshall ajudou, mas agora já não voltarão a existir medidas dessa natureza, porque faltam dinheiro e vontade política.
Hoje é essa Alemanha, a de Angela Merkel e da mais absoluta euro-arrogância, caucionada por uma Comissão Europeia sem autoridade nem força, mas demasiado cara e impositiva, que tenta afirmar o seu total domínio sobre o resto da Europa, mesmo sem precisar das divisões “Panzer” de Rommel, que Hitler obrigou a suicidar-se e dos aviões da LuftWaffe de Hermann Goering, e com a perversa capacidade de levar os países do Norte a hostilizarem os do Sul, porta perigosamente escancarada para a xenofobia, para as derivas autoritárias e para a crescente tensão político-social que ninguém pode ter a veleidade de dizer no que irá degenerar. Estamos, por isso, na antecâmara de um ciclo que pode muito bem ser de trevas, como foi
o período iniciado com a ascensão do Reich hitleriano ao poder, em 1933, há apenas oito décadas, o que, enquanto tempo histórico vivido e sofrido, é muito pouco relevante, por tudo se ter passado ainda ontem.
Entretanto, ficaram por saldar as dívidas que os povos ocupados, humilhados e perseguidos, como é o caso dos Gregos, querem agora ver cobradas, pois não esqueceram a destruição de cidades como Salónica, nem os mortos nos campos de concentração.
Diz o aforismo popular que quem não deve não teme. Mas, quem teme, deve ter a humildade, a prudência e a contenção bastantes para perceber que há uma fina linha divisória que, em nome do futuro da humanidade, não pode ser ultrapassada.
Ninguém esquece a grandeza da música, da filosofia, da literatura ou do teatro alemães. Mas também não é possível esquecer que a célebre árvore à sombra da qual Goethe escrevia e meditava no que viria a ser o campo de concentração de Buchenwald, a escassos oito quilómetros de Weimar, foi destruído pelos carrascos nazis.
Estamos, pois, a pisar areias movediças e terrenos minados, o que recomenda que não se reduza, provocatoriamente, as relações entre povos e Estados às parcelas do deve e haver que a ditadura dos mercados financeiros e das suas agências terroristas querem impor como regra e valor absoluto. Se se for por aí, muito mal se andará, e tudo pode vir a acabar de uma forma trágica e ainda mais destrutiva e letal. O alerta já veio de políticos experientes e com memória, que por certo se dirigiam também à chanceler alemã, criada e formada na ex-RDA, ou seja, em regime comunista e no seio de uma comunidade protestante ortodoxa. Enquanto a lucidez e o bom senso não imperarem, toda a inquietação é legítima e toda a mobilização de boas vontades é, no mínimo, indispensável.
Torna-se, por isso, recomendável a leitura urgente do livro “A Europa Alemã-de Maquiavel a “Merkievel”(Ed. 70), do sociológo e filósofo alemão Ulric Beck, autor de uma obra-prima intitulada “A Sociedade de Risco”, que retoma o aviso feito por Thomas Mann, em 1953, na Universidade de Hamburgo, após o regresso do seu exílio norte-americano. Lançou então o autor de “A Morte em Veneza”, Prémio Nobel da Literatura, um apelo aos seus compatriotas no sentido de que nunca mais voltassem “ aspirar a uma Europa alemã”. Todavia, foi justamente isso que voltou a acontecer com o agudizar da crise do euro. Escreve Ulrich Beck, nascido um ano antes do final da guerra, que é imperiosa a celebração de um “contrato social europeu”, que garanta mais liberdade, mais segurança social e mais democracia e soberania em toda a Europa. Resta saber se ainda vamos a tempo de garantir que tal aconteça.
Cabe ao eleitorado alemão criar condições políticas para que o tempo da arrogância cesse e para que a Alemanha de Goethe, Beethoven, Heine, Schiller ou Nietzsche, de que o nazismo abusivamente tentou apropriar-se, não cave o fosso da sua própria perdição e da perdição europeia, com todas as consequências que daí poderão advir. A situação geral da Europa no concerto das nações, com os centros de poder, decisão e criação de riqueza a deslocarem-se para Oriente, também recomenda que assim seja, embora os sinais que chegam de Berlim e do norte do continente em geral não sejam geradores de esperança e de confiança.
Leiam-se as palavras sábias de Thomas Mann, cujos livros foram dos primeiros a ser queimados nos autos-de-fé do nazismo nas principais cidades alemãs, logo em 1933, e também as de Ulrich Beck, para que a visão lúcida, humanista e solidária triunfe e não tenhamos de olhar para Berlim e para os seus políticos como a renovada fonte dos males maiores e de um colapso a que a Europa de hoje não estaria em condições de sobreviver.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3979 de 3 de Maio de 2013

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