José Jorge Letria
Confesso que sempre tive dificuldade em encarar a palavra “palhaço” como insulto, pois sempre reservei aos palhaços um lugar de carinho e saudade no panteão das minhas memórias afectivas.
Foram os palhaços das companhias de circo que vinham ao Coliseu dos Recreio de Lisboa que me proporcionaram tardes inesquecíveis de riso e de festa, na companhia dos meus pais. Recordo-me, em especial, de um chamado “Quinito”, de pernas muito esguias que emitia uns uivos irresistíveis, fazendo-me rir até às lágrimas. Tanto quanto sei, morreu quase na miséria, algures na Margem Sul, mas nunca o esqueci.
Em Portugal, o ofício de palhaço foi declinando com o próprio declínio do circo, que se tornou uma forma de espectáculo em crise muito antes de a crise ter atingido Portugal.
Essa crise do ofício resultou também da falta de renovação de repertórios e da fuga de jovens com talento para outras profissões extra-circenses, sem que houvesse qualquer forma de apoio estatal a este sector do espectáculo.
Continuo a pensar que não há nada mais triste que a tristeza irremediável de um palhaço, mesmo quando essa tristeza existe só para nos fazer rir. E quando falo de palhaços, não me refiro, naturalmente, a alguns comediantes de feira que estão na moda, que fazem episodicamente uns programas de televisão e depois ganham fortunas em mega-campanhas de publicidade, escrevem em jornais e revistas e ainda dão palpites e fazem comentários sobre política, futebol, sobre a crise e sobre a ética ou a falta de ética dos outros. Esses talvez sejam os verdadeiros palhaços, mas com bem visíveis aspas, só que o facto de estarem na crista da onda da moda os deixa ao abrigo do efeito corrosivo do insulto e mesmo da crítica, a que, pelos vistos, ninguém se atreve, talvez por temer o “poder” esses “palhaços”.
É dos verdadeiros palhaços que falo, daqueles que se tornaram praticamente sem-abrigos do mundo artístico, passeando, numa itinerância de penúria, o seu desejo de alegrar as crianças e os adultos que ainda têm forças para esboçar um sorriso ou soltar uma gargalhada.
É verdade que também poderíamos chamar “palhaços” a alguns comentadores-políticos e políticos-comentadores que transformaram o nosso espaço mediático num circo tantas vezes patético, mas isso poderia ser tomado como insulto e, por esse motivo, excluo esta referência, de resto muito pouco estimulante para quem escreve esta crónica. É que nunca consegui confundir o enjoo com o prazer de rir.
Em tempos imaginei uma ficção na qual um palhaço há muito desempregado, que até já fizera de Pai Natal para conseguir sobreviver, se punha a atravessar as ruas fora da zona dos semáforos, só para que os automobilistas o mimoseassem com o sonoro insulto: “Sai daí, ó palhaço !”.
Serve, assim, esta crónica para salvaguardar a honra, a dignidade e a utilidade social e artística dos verdadeiros palhaços e para deixar registada a minha esperança de que uma estéril polémica sobre o uso da palavra “palhaço” possa servir para que quem tem meios de decisão possa ajudar a preservar esta disciplina única da arte circense.
E, como se sabe, vem de muito longe a arte do palhaço, com ou sem máscara. Na Roma da Antiguidade, o genial Plauto transformou algumas das suas personagens de comédia em verdadeiros palhaços, apenas com o objectivo de divertir o público da época. Hoje é muito diferente. Quem nos faz rir é, na maior das vezes, quem não tem esse propósito, o que significa que a sua eficácia em matéria de diversão é um puro acidente do destino. O pior é que estamos cercados por esses “palhaços” acidentais.
Verdadeiramente, o que eu gostava é que, na hora de caricaturar ou de insultar, se tentasse poupar a dignidade e a honra de um ofício que poderá mesmo estar à beira da extinção, já que o eixo do riso migrou há muito para outros territórios.
Que vivam, pois, e nos façam rir os verdadeiros palhaços, que a violência da crise há muito condenou às lágrimas amargas de um futuro sem esperança.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3983 de 31 de Maio de 2013

