Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

TRÊS EFEMÉRIDES QUE ILUMINAM ESTE TEMPO DE OBSCURIDADE E TRISTEZA

José Jorge Letria

Enquanto a vida política se degrada de dia para dia, os sectores produtivos se mantêm em estado de agonia e os agentes culturais enfrentam dificuldades nunca antes conhecidas, continuamos a ver o desemprego a aumentar e o fluxo migratório, designadamente de portugueses com elevado nível de escolaridade, a atingir níveis alarmantes. É este o Portugal que é preciso fazer renascer, restaurando a confiança das camadas mais activas da população, embora saibamos que esse processo de mudança implica a escolha de novos rumos e de novos protagonistas, o que só pode acontecer se houver eleições.
As divisões no seio do governo, com reconhecida e indisfarçável expressão pública, e a veemência da reprovação das políticas do executivo por parte de figuras centrais da área ideológica do PSD e do CDS tornaram inadiável uma mudança que, aparentemente, só o Presidente da República considera inoportuna e reprovável. Um dia, far-se-á a história destes tempos conturbados e, embora a História costume sempre ser escrita pelos vencedores, também sabemos que, em regra, não tende a ser branda com os hesitantes, com os que, em nome de uma inexistente estabilidade, adiam as decisões que a emergência social exige e impõe, sem tibiezas nem tergiversações.
Que não nos faleça, porém, o ânimo de que precisamos para celebrar o que nos engrandece e reconforta individual e colectivamente. Falo, em concreto, de três efemérides que reclamam atenção e destaque. Este ano comemoram-se os 125 anos do nascimento de Fernando Pessoa, os 120 anos do nascimento de José de Almada Negreiros e os 100 anos do nascimento de João Villaret. Todos contribuíram para dar à cultura portuguesa uma vitalidade, uma pujança e uma dignidade que nem o passar dos anos nem a falta de sensibilidade dos decisores políticos para apoiarem criadores e artistas conseguem pôr em causa.
Pessoa e Almada, figuras geniais do primeiro modernismo português e fundadores do movimento “Orpheu” são verdadeiros pilares da cultura portuguesa do século XX. O primeiro deixou uma imensa arca de inéditos e morreu praticamente desconhecido do público leitor. O segundo, que viveu o suficiente até 1971 para ver consagrado o seu génio, foi de tudo um pouco, desde bailarino a poeta, desde pintor a ficcionista e dramaturgo. Viveu em Madrid e em Paris, onde podia ter obtido consagração como um dos maiores artistas do seu século, mas decidiu regressar, roído pelas saudades e pela esperança de que a mesquinhez e o provincianismo não obscurecessem o caminho luminoso que pretendia trilhar. Em parte enganou-se, pois Portugal nunca conseguiu estar à altura do seu génio, como já antes acontecera com Pessoa, embora também possa afirmar-se, como aqui o faço, que eles só foram o que foram porque nasceram portugueses e Portugal lhes deu alma e engenho bastantes para criarem as obras que criaram.
Já João Villaret, genial actor de teatro e de cinema, mas também inexcedível recitador e divulgador de poesia, deixou um legado que ainda hoje nos fascina quando temos acesso aos programas de poesia feitos nos primórdios da RTP e a filmes como “Frei Luís de Sousa”. Era um actor versátil, inteligente e culto que a morte levou demasiado cedo, mas que ajudou, com o seu exemplo único, a formar gerações de actores e de leitores de poesia.
Quando pensamos nestes nomes e nas obras que nos deixaram como herança, não temos dúvidas em afirmar que foi na cultura, depois da gesta dos descobrimentos marítimos que mais perto conseguimos estar da excelência, da grandeza e da verdadeira posteridade. Por tudo isto nos dói hoje ver partir tanta gente jovem, em busca de emprego e de esperança, e outros tantos penando sem emprego nas curvas apertadas de um presente sem alento nem remissão.
Olhando para os governantes e para o seu discurso enredado, autojustificativo e tantas vezes eivado de falsidades e falsas promessas, somos levados a imaginar que Manifesto sairia da pena de Almada Negreiros, que nunca foi de esquerda mas também nunca foi complacente com a mediocridade, a incompetência e a pequenez moral.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3981 de 17 de Maio de 2013

Leave a Reply