Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

BRASIL NAS RUAS DEVE SER EXEMPLO PARA PORTUGAL

José Jorge Letria

Quando nada o fazia prever, os brasileiros começaram a sair à rua para protestar contra coisas concretas e para exigirem mudanças inadiáveis. A taxa de crescimento anual de um dos BRIC, após a retirada da situação de pobreza extrema de quase 30 milhões de cidadãos, colocava-nos e coloca-nos perante um grande país a desenvolver-se de forma imparável e irreversível.
Todos sabemos como o Brasil é e sempre foi rico, mas também ninguém ignora que é um dos países do mundo onde as assimetrias sociais e económicas são mais gritantes e aparentemente insuperáveis. Ser rico no Brasil significa ser muito rico. Isso é visível no parque habitacional, onde os condomínios fechados com grande aparato securitário mostram a riqueza de quem muito tem, em contraste com a vida difícil de quem vive ainda estado de carência.
O Brasil é um país imenso e fascinante, tanto do ponto de vista cultural como do social, sendo o principal pilar da lusofonia e da sua afirmação neste mundo globalizado, com os seus quase 200 milhões de habitantes. Quem conhece e gosta do Brasil e dos Brasileiros, como é o caso do autor desta crónica, encara com grande expectativa a forma como esta situação de protesto popular irá evoluir.
O que vale a pena salientar é que na origem desta grande movimentação de massas em várias cidades do país estiveram factores como o preço dos transportes públicos e o custo astronómico do processo de construção dos novos estádios para o Mundial de Futebol. E é importante referir que o protesto surge num país onde o futebol tem quase o valor de uma religião e onde giram negócios gigantescos em torno deste espectáculo e das suas figuras icónicas.
Os Brasileiros mais pobres vieram para as praças e ruas manifestar a sua indignação e revolta com a forma como os dinheiros públicos estão a ser utilizados e têm-no feito, maioritariamente, de forma pacífica, de molde a serem ouvidos e respeitados na sua acção cívica.
É bom que o governo português ponha os olhos no que se está a passar no Brasil e perceba que a força da palavra que brota da rua por vezes é quanto basta para que mudem drasticamente os rumos da política e das políticas, sobretudo quando elas estão erradas. Em Portugal, tornou-se evidente que é difícil cavar ainda mais o fosso entre os decisores políticos e o povo, sendo que têm sido principalmente as vozes de respeitadas figuras do PSD a contribuir para o evidente estado de isolamento do executivo de Pedro Passos Coelho. Como estádios novos já temos e ainda estamos a pagá-los, não faltam outros pretextos para que a rua volte a fazer ouvir a sua voz, quando estamos a menos de um ano de comemorar o 40º aniversário do 25 de Abril.
Como disse Martin Luther King pouco tempo antes de ser assassinado, “lutar por aquilo que é justo não é só um direito, mas também é um dever”. Os Brasileiros e os Turcos que não querem ser islamizados à força têm vindo para as ruas para mostrar que o protesto cívico fortalece a democracia e o pluralismo. Em Portugal, é importante que os governantes percebam que a legitimidade eleitoral deixa de funcionar quando se perde claramente a legitimidade social.
Do mesmo modo que no Brasil se tornou evidente que o mundo cor de rosa das telenovelas nada tem a ver com a realidade intensamente contrastada da vida comunitária, é importante que em Portugal os Portugueses tenham consciência de que as opções que estão a ser feitas em nome deles estão a hipotecar irremediavelmente o seu futuro e o dos seus filhos. É nestas alturas que a rua deve fazer ouvir a sua voz, para que não restem dúvidas a quem ainda as tenha.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3987 de 28 de Junho de 2013

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