José Jorge Letria
O que de lamentável se passou nas duas últimas semanas no seio da coligação PSD/CDS/PP e com o governo explica e justifica o “irrevogável” desprezo da maioria dos portugueses pelos políticos que, com total irresponsabilidade, calculismo e incompetência, deixaram Portugal ainda mais perto do abismo e da queda irreversível. Esta maioria já estava ferida de morte e, deste modo, entrou em aflitiva agonia.
No entanto, conforme está historicamente comprovado, quando se trata de manter o poder, a direita não olha a meios para preservar privilégios, sinecuras e teias de interesses, colocando o interesse dos directórios e dos “lobbies” que eles servem muito acima do interesse nacional.
A direita estrebucha, evidencia contradições e fracturas incontornáveis, mas não aceita perder o comboio de poder, mesmo depois de ter perdido há muito a legitimidade social, tanto na rua como nas declarações inequívocas de dirigentes políticos, a começar pelas dos históricos do PSD, de Manuela Ferreira Leite a António Capucho, passando por José Pacheco Pereira e tantos outros. Imagino a indignação e a revolta de muitos deles, por serem pessoas íntegras, com provas dadas e com verdadeiro sentido patriótico.
Nestas alturas, como noutras que a História incessantemente tem registado, e esquerda não sabe unir-se para credibilizar alternativas sólidas e duráveis. A direita é, nesse aspecto, muito mais pragmática e operativa, mesmo quando se encontra agonizante. Entretanto, Portugal e o povo português vão vendo a soberania nacional cada vez comprometida e o seu futuro hipotecado. Já não há protestos que cheguem nem indignação que pareça ser capaz de fazer prevalecer o bom senso e a coragem de decidir que se espera de quem foi eleito para arbitrar, para dizer basta e para colocar acima das mesquinhez das querelas e do calculismo sem limites o verdadeiro interesse nacional.
O tórrido calor destes dias faz com que o Verão se torne ainda mais quente e com que a lucidez não abunde. Estamos todos por um fio, e esse fio é o da História, que costuma ser implacável quando se trata de produzir os seus juízos definitivos. Portugal que fez os Descobrimentos e deu lições de civilização e humanismo universalista ao mundo é hoje motivo de chacota nos grande fóruns internacionais que observam os sucessivos desaires de uma maioria política fragmentada, anémica mas sempre sôfrega de poder.
Mas a direita internacional dos mega-interesses financeiros tratou logo de fazer soar as campainhas de alarme pela voz de figuras como o italiano Mario Dragui, como o alemão Sheubel ou como próprio Durão Barroso. Foi a voz do medo e da chantagem política. Para eles, o fim da coligação seria a inevitabilidade do segundo resgate e o afundamento total de Portugal nos mercados financeiros. Essa chantagem provocou hesitações e dúvidas, mas não foi bastante para levar a maioria dos portugueses a perceberem que o adiamento da indispensável clarificação política, através de eleições antecipadas, irá prolongar e perpetuar uma crise que nos deixará ainda pior do que já estamos, negando aos mecanismos de renovação e alternância da democracia a possibilidade de definir uma solução, uma saída e um novo ciclo de esperança que nos mobilize e fortaleça.
Como pode o povo português dar o mínimo de crédito a políticos que destruíram o próprio sentido de adjectivos como “irrevogável”, usando-os como disfarce para ocultarem interesses e estratégias de sobrevivência que fariam corar de vergonha o florentino Maquiavel? E o pior é que é sempre o mesmo a pagar, ou seja, o povo português, os milhões de reformados, de desempregados e de famílias que vivem no mais aviltante estado de pobreza.
Como pode o Presidente da República aceitar que uma demissão de peso lhe seja comunicada cerca de uma hora antes de uma tomada de posse mais do que polémica e no auge de uma crise interna que deixava a estrutura governativa quase em estado de estertor?
Portugal precisa de um novo ciclo político, de uma alternativa sólida que nos deixe ao abrigo da incompetência, da insensibilidade e da expressão degradante de um projecto ideológico que liquida tudo o que a democracia portuguesa construiu ao longo de quase quatro décadas, com destaque para as conquistas do Estado Social hoje praticamente destruídas.
É certo que não estamos no Egipto, no Brasil ou na Turquia, mas estamos num país onde a rua mostrou já muitas vezes ter voz suficientemente audível para se fazer respeitar. A desistência, a resignação e a apatia poderão ser, nestas horas dramáticas, o nosso pior inimigo. Mas não há calor tórrido ou apelo das férias e das praias que torne adiável a justeza do protesto e da indignação de quem sofre. Calar agora e desistir de se lutar pelo que é justo pode representar a liquidação do que resta da nossa esperança democrática. E essa desistência poderá transformar-se numa verdadeira traição às gerações que de nós esperam e exigem a coragem de resistir em nome de um futuro de dignidade, justiça social e solidariedade.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3989 d 12-7-2013

